Segunda-feira, Março 21
Na poça
É já chover, chover, chover. Sentir enfriar a pedra, ulir a cópula imensa do chao a se assolagar, ver por fim as fochancas se encher de água de verdade a conta dos regatos novos sempre em curso alto que baixam polos passeios. Chover, chover, chover até que se pode começar a pensar que nunha houvo chao enjoito nengum. E deixar-se no ritmo a sentir que é nessas mesmas vibrações que abaneam um par de pedras que temos no cérebro e que estavam já a morrer sem verdim por riba, sem se lubricar na humidade do ar em contínuo movimento, do céu a caer. Deixamo-nos molhar ao descoido, a ver se nos tiram o pó este da pele e do olhar, deixamo-nos refrescar, e ogalhá nom pare uns dias e poidamos ainda ficar na casa, condicionados polo clima, a sentir segundos que caem da outra banda da fiestra.
Ou ir tomar-lhe umha e pisar a consciências as poças.
posted by São Tomé 02:32
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Sexta-feira, Março 18
SMS Chat
Por uns dias, casualidade, casualidade, casualidade, a nossa comunicaçom fica restringida às breves mensagens do telemóvel. No espaço entre os pequenos caracteres ffica a promessa do muito que nos imos contar e umha gana de nos ver que medra no silêncio, forçando a separaçom entre as letras, inflando o interlinhado, combando o ecrám com o seu crescente volume.
posted by São Tomé 01:11
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Quinta-feira, Março 17
A velha equipa
O Mansamino aparece por casa de quando em quando com pouco preavisso. El bem sabe que em geral nom falta sítio, mas sabe também que nom terei reparos em o largar da casa no caso de que jorda algum plam destacado (som já muitos anos a ranhar na paciência).
O caralho é que, no fundo, deve ser que o vê-lo funciona-me coma um aquel de retorno aos tempos de noites longas, movidas políticas e poéticas várias, movendo-se em ambientes fluintes e vendo como era a cousa, tirar-lhe o pó a um par de anacos de mim que anda ciscados também pola casa.
Afinal, por casualidades (a semana estrutura-se en torno delas), acabamos juntando-nos umha boa quadrilha de velhos, e recuperamos maus costumes a golpe de quinta. A diferência doutras vezes, tudo se tinge um bocado de distáncia. Mas ainda bom.

posted by São Tomé 23:45
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Arrecendos e flashbacks
Será com o evidente retorneado retorno da primavera.
Será cousa do certo desepejamento que se me vai instalando no naris.
A cousa é que nestes últimos días vou pola rua e sofro flashbacks com o reencontro de certos arrecendos.
Ontem era um día anuvado e à hora de jantar a escasa gente caminhava por umha cidade que fora abandonada e seria o calor das pedras já diferente ao dos últimos messes e o pó libre de passos que erguia o vento o que me levou de socato ao dia de maio em que foramos olhar aquela casa grande, velha e escura na rua de Sam Pedro para vivirmos uns meses e entom de socato, no meio dumha rua acugulada de pessoas a fugir com a inquedança que dá a fame (caminho à casa nos passos), o arrecendo dumha pola de magnólia rota (ou cousa semelhante) leva-me a jardins de jogos de infáncia e aqueloutra terra seca mestura-se com as imagens da casa escura.
Há um anaco, entro num lugar fechado e pedra onde nunca dá o sol, e sinto esse arrecendo que me leva a esse mesmo lugar há anos e a algum pequeno anaco escuro e fresco dum castelo ou dumha igreja. E de novo o cheiro a madeira, verniz e tinta do lugar onde trabalho volta-me a esse mesmo lugar noutro tempo, e imediatamente depois, à biblioteca onde botava horas e horas e, coma sempre e por sempre e sobre tudo, fico na sensaçom final da eterna livraria onde, de neno, mercava cada semana as BDs que me figérom, o mesmo arrecendo que busco irremediavelmente nos livros novos que merco, nos quiosques que vissito, em todas e cada umha das livrarias.
posted by São Tomé 01:06
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Quarta-feira, Março 16
Confimaçom de lembrança
Fiquei curto ontem quando dizia que me chamava gente à que tinha que chamar. Dalgum jeito, desde lugares distantes, pessoas variadas por diversas razões e médios lembrárom-se de mim. Tivem novas de exiliados, de retirados, de contactos de negócios. Soubem de gente à que lhe levava meses sem oir a voz nem lhes ler a letra. E todos no mesmo dia. O caso é que nom me surprende já. Estou afeito a ver como se juntam as casualidades em dias aparentemente normais.
Embora ontem existia a peculiaridade inevitável de querer ser primavera. Gente na erva, cheiros sempre novos, meninas já em camissola a percorrer as ruas, olhares a se cruzar e ver-se um e pensar se nom estarei ainda com a roupa de inverno posta e se estou a ponto para os postos de saida destar carreira de sangue e para os centrifugados e escorridos que anúncia a vida que se encarreira coma um rio quando há força, por lugares que nom sempre som aqueles que nós pensávamos.
Poida que, de jeito semelhante, ao igual que eu lembrei Pasárgada, muitos se olham ou se olhárom ontem, tirárom de balance e por algures me encontrárom na memória para darem sinais de vida e apertas a distáncia. Aledou-me saber de todos, obrigado, gentes.
posted by São Tomé 00:34
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Terça-feira, Março 15
Convocatória de luz
e
Desta volta entro na ducha cum estranho ritmo na cabeça. Um Dumdum dum dum dumdum que nom sei de onde saiu. A mente preguiceira torna à ideia da gana de ir a algures, e na boca formam-se-me as palavras "vou-me...". Por ai vai a cousa. Sei-no. Algo é.
Ainda boto um minuto debaixo da água até que completo esses primeiros versos e se fai a luz. Já nom só na cabeça, mas também um bocado no próprio dia.
"Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada"
(O velho poema do Manuel Bandeira que me descobrera Maria. Acho que mais dum ano sem me vir aos beiços nem à mente. Sacode-se-lhe o pó dos recantos do cérebro ao entoar as palavras. Por onde viria de volta?)
Desde aquela, embora a vida segue na mesma, anuncia-me visitas longamente agardadas, fam-me chamadas que devia estar a fazer eu, organiza-se a vida social um bocado e acelera-se um chisco tudo em vários sentidos.
A ritmo de primavera imos acelerando. Trapobana passa hoje pola beira de Pasárdaga.
posted by São Tomé 02:04
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Segunda-feira, Março 14
(Acotaçom: Tempo morto)
< Vou dizer que quero tempo. E se em Oeste o ventos som mais mainos e o sol, no lugar e de pôr-se fica ainda um bocado a dar luz desde debaixo da água. E se passam os passaros coma se nom estivéssemos lá e nos chiam na orelha. E se saltam do fondo dos regatos cousas que nom sabemos soterradas desde há tempo. E se a luz é luz e ficámos lá sentados em mais um espaço em branco da nossa história de música branca. E se acontece isso tudo quero tempo para estar láa, e nom nestoutros eidos onde a luz é parcial. E a ver se assim lhe colho um bocado mais o pulso vida e encontro palavras que dizer nos silêncios que me deixas. >
posted by São Tomé 06:33
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Quinta-feira, Março 10
Chumbo
Esperto e descobro já antes de abrir os olhos que se gerou um núcleo duro no centro da minha cabeça que a almofada atrai magneticamente. Custa-me tanto separar a fazula da teia, e sinto que venho de tam longe que me dá medo voltar a ficar durmido e fazer de novo o que adivinho um longo caminho de volta. Temo me perder nalgum ponto e ir dar a algum outro corpo no que a cabeça seja ainda mais pessada.
Quando tento recuperar o controlo do corpo, comprovo que o cansaço se solidificou. De estar aderido à pele penetrou-me a través dos poros, da boca entreaberta que deitava baba, do naris que inalou no sono esse pó invissível que me tinha coberto de dificultava o me mover. Agora o cansaço incorporou-se a mim. Ficou metido nos ossos coma a humidade nas branhas. E agora tenho a médula de chumbo, e pesa em tal jeito que só podo mover um braço de cada vez, e pouco, e o corpo sinte umha especial gravidade desde a massa do colchom e quer ficar a durmir, mas eu nom, tenho medo ao caminho escuro.
Se nom tivesse sofrido este proceso milheiros de vezes, ficaria estarrecido ante tan complexa fenomenologia. E, sem embargo um proceso quase cotián. É só esse conhecimento o que me deixa ver que a saida única é se erguer, buscar a gravidade normal, diluir na verticalidade o chumbo tudo. Nom passa nada. É normal. E sem embargo chego de tam longe que nom podo ainda tirar o medo de enriba, e acompanha-me ainda até o seguinte espertar, quando vejo que podo fazê-lo de novo e viver.
posted by São Tomé 23:43
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Quarta-feira, Março 9
Paisagem privada
Tenho um espaço que vou olhar duas vezes por semana. Um par de árbores bem cubertos de hedra, cristal mediante. O vento peitea-os um bocado, tenhem o inevitável carreiro polo meio. Passa ocasionalmente alguém a correr e há ainda algumha cousa abandonada, como agradeço que seja. Ficam os sons amortecidos, os límites amplos marcados polo vidro fam-se umha realidade distinta, diorama escala 1:1 da calma.
Nom o escolhim eu, mas funciona. No meio de tudo vou-no olhando em fragmentos e ainda me assombro com as variações da luz, o medrar do dia, a chuva que se mergulha nas noites temperás do inverno, as nuvens que fecham o quadro polo fondo. Tamém me assombra às vezes o eu e o nom eu que olha.
A questom é que me tira por fora de tudo. E isso abonda para mim. Hei-no achar de menos.
posted by São Tomé 00:32
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Terça-feira, Março 8
Um bocado de verao
Voltava eu à casa e um solpor rotundo e demorado dava-lhe vida a árbores espidas que nem agocho aos corvos achegavam.
Concorde co contorno, dentro umha mar calma reconhecia que um bocado de verao estava a fazer ninho. A sabendas de que nom era ainda certo, por uns intres sentim essa seguridade calma que outorga o saber a duraçom dos días (que minguam lenemente nesses meses). Tivem a certeza do ponto até o qual responde o corpo (e a distáncia nom era pouca). Chegou um anaco de estaçom fora de hora. Bem sei que nom fum o único que a perceveu.
Como nom podia ser menos, ao solpor seguiu a noite, e no novo día voltárom as dores, as complicações, a sensaçom (se nos deixássemos arrastar) de que nom sai cousa a direitas e que nom se dá feito com tudo.
Agarro-me ao solpor e, embora me deixe arrastar, nom deixo de saber no fundo que a realidade é ainda um oco que tem de encher a primavera de tumultos, que ainda falta para as certezas calmas do verao.
Ainda bom que está por ai o teu leito para tascar o freio e dar-se o luxo de viver fora de tempo, de solicitar ao nosso gosto estações e paragens nos que se acobilhar mentres.
posted by São Tomé 00:50
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Quarta-feira, Março 2
Mantra de teimosia: O Gnomo
Acho que tenho congelados um par de jeitos de pensamento e que se solidificou, nom sei muito bem qual ou por quê, também um sistema de cansaço que se estende por baixo das pálpebras até certos músculos e que me corrige o sono cara a visões de espaços meio em ruinas e histórias pouco ajeitadas para descontrair.
Afinal a questom é que enquanto me ducho canto de vagar, e sem saber por quê, um tema que é habitual dos intres em que penso que nom estava mal que o mundo semelhasse um bocado mais sinjelo. And little gnomes stay in their homes / Eating, sleeping, drinking their wine
(Look at the sky, look at the river
Isn't it good
Look at the sky, look at the river
Isn't it good
Winding, finding places to go)
(Nota: Sempre me chamárom a atençom as concordáncias entre esta cançom e mais Norwegian Wood.)
posted by São Tomé 00:02
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Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro
"Si o vello Sinbad volvese ás illas"
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