Quinta-feira, Setembro 30
Temas de distáncia
A piques da partida final de O'Connell, pido-lhe que me baixe umha cançom que levo a anos a querer. Devem ir lá uns dez desde que lim O Infortúnio da Soidade do Caneiro, novela na que o Inés (bom taberneiro) escuitava sistematicamente, 119 vezes em cada crisse, "Moonlight in Vermont" canda por Luís Armstrong e Ella Fitzgerald.
Tenho finalmente a cançom, linda por suposto como corresponde ao duo. Mas nom a vou escuitar (coma o Inés quando marchava Ana) com ocasom da tua partida. Bem sabes que som outros os nossos temas, e ficará-me essa luz de lua para as noites de inverno nas que, com porto, licor café ou licor de guindas, haja companha que aqueça sem que morram por isso as saudades. E acho que estarás de acordo.
(Escuito, sem embargo a miudo Piazza, New York Catcher, Mistress Bloomfield,
- I wish that you were here with me to pass the dull weekend -, esse tema nom há quem lho arrebate)
posted by Sao Tomé 19:00
(Acotaçom: Escrita quase automática)
< Por uns intres é apenas presente e tanto tem que sejas ou nom que estejas ou nom. Nom repartírom o correio nem as revistas hoje. Nom há gás, a sesta senta mal e embora oscile ritmicamente a roupa tendida, esta luz nom deixa dúvidas e é o tempo o que parou. É assim que nem ti partes nem ti chegas. Estou sozinho mas é o demais o que fica parado. Movo-me entre os remuínhos parados da corrente. Nom tem presa, só pausa. Quiçais no fundo, deva reconhecer que agardo o vento, o empurrom, a garrafa de champám contra o casco que há pôr tudo em movimento. Onde fica?
.......................................................................................
E vem novinha e conta-me histórias das luzes do norte, apertas novas, chao de calma. E vem inteira a me trazer nuvens, e canta comigo polas ruas nas noites de cheia, Dama do Inverno, dá-me fê para turrar pola vida a pesar do frio, achega-me o licor, pousa na mao coma as folerpas e deixa que te acarinhe garabulho.
Espaço em branco, cheia de mim, assolagam os mundos de trás dos meus olhos no teu olhar, nas tuas palavras enleas-me os pés e fico deitado com a esperança tola de que te deixes cair neste mesmo leito que te estranha que te quero que há Lua. >
posted by Sao Tomé 18:56
Quarta-feira, Setembro 29
Manchas de sol
É ainda de noite quando me ergo. O outono decide achegar-se no dia mesmo de Sam Miguel.
O outono e o verao separam-se e mesturam-se coma as águas de dous rios de diferente cor. Levadas por nom se sabe quais correntes, aparecem manchas de sol no meio de setembro, e tardes que nos mentem e falam de que ainda é possível, que creamos na ilusom dos dias longos.
Mas já o solpor é mais inclinado, e na noite volta o frio, e nesta manhá a humidade lembra-nos a verdade.
Hoje é a néboa a que ilha o mundo em elementos individuais, a que che afasta do meu olhar.
Embora seja também o manto baixo o que ficamos sonolentos e unidos.
Mas ainda virám dias de tirar algumha roupa e ir tomar o sol em Bonaval, nódoas de sol no rio do outono.
posted by Sao Tomé 18:40
Terça-feira, Setembro 28
O'Connell
Entre outros vários correios que me traem lembranças de sorrisos, de conversas longas e de histórias (nalguns casos ainda pendentes), recevo um remitido por Maggie O'Connell.
Detás do alcume encontro mais umha vez essa velha e querida amiga à que acho que, como di a copla, vai-lhe ficar em Trapobana, Maggie O'Connell para sempre.
Sinto entom como estes mitos comuns, estes detalhes compartidos fam-se aos poucos garantes dumha amizade. Mais umha vez, as cousas pequenas que tocam o coraçom.
Como nom se lhe vai querer a alguém com esse nome?
Que seja certo, e o nome que te das e que te dou seja mais um laço ainda de muitos anos de confiança (que dará por vezes nojo, é claro).
posted by Sao Tomé 18:57
Segunda-feira, Setembro 27
Do lado das cousas pequenas
.
Pom-me do lado das cousas pequenas, inclue-me no andel onda a luz da tarde, os saudos dos animais de estimaçom, da flor das plantas que se tenhem na casa, os botes da marmelada..
Deixa o que che dou no espaço das cervejas em boa companha, garda-me onda o licor café, a carom dos passeios a pé espido pola praia.
(Nom me multipliques o valor quando cada vez eu mesmo me vou dando menos.)
Aligeira-me, quere-me desse jeito e deixa-te, por igual, ficar gardada onda a almofada de toda a vida, onda os couselos do telhado, onda os joguetes de neno, com toda essa extraordinária importáncia que tenhem também os recantos da cidade.
posted by Sao Tomé 20:21
Sexta-feira, Setembro 24
Das mudanças e dos restos
Embora eu sabia que a minha família passara por várias mudanças antes de eu nascer, a minha infáncia e adolescência transcorrérom integramente nos mesmos espaços.
Por umha banda a tenda já fundada, vinte e três anos antes de chegar eu, polos meus avós. Pola outra, o prédio no que finalmente recalou o matrimónio dos meus pais e os seus dous filhos.
A existência nesses espaços de vestígios arqueológicos conservados ainda coma relíquias traidas do mundo antigo da afastada aldeia (a machada, a mesa e o aparador de castinheiro, um revólver, balas de quando a guerra, algumha jóia agochada, as fotografias das paredes, a cunca de cen anos que fora agasalho de voda da minha avoa), onda os velhos joguetes dos meus irmaos (o Cheminova, os Madelman, os clics de Famobil que o meu irmao atesourava até que mos deu, os Jogos Reunidos, o soldadinhos que agasalhavam coa Pepsi), a roupa feita a mao, os cestos de vímbio nos que durmiam sucessivamente os gatos, a cama da trastenda onde morreu Dolores, já anos antes abandonada...)
A estabilidade onda essa caste arqueologia fixo-me medrar na sensaçom de que as cousas foram sempre daquel jeito e que assim se haviam de manter. Criou-se em mim essa necessidade de estabilidade estrema que ainda hoje arrastro.
A venda do mostrador velho, a mudança do carro, cada novo estante com que o meu pai fazia por conter o alude de livros que, inexorável, ia cobrindo a casa por obra dos seus filhos, a construcçom do faiado, a reforma do banho quando eu tinha três anos, o dia em que a televisom feita a mao deixou de funzionar definitivamente... Causavam-me a mesma mágoa que provocava, cada ano, o me despedir da árvore de Natal e desmontar o nascimento.
Ainda há algo dessa mágoa hoje em ver como a mesa da trastenda onde jantávamos cada dia fica coberta das ferramentas do meu pai; como podo deixar lá umha revista e encontrá-la no mesmo lugar ao voltar logo de quinze dias; ao ver como os meus velhos degradam-se com o tempo e como ninguém mora naqueles meus espaços. Em ver que já nom me importam tanto todos aqueles fetiches que me fixavam lá e eram o meu descanso (o corcho que conserva os mesmos cartazes desde há dez anos, as minhas colecções pequenas, os livros mais velhos, os joguetes que ficam arrumados agardando que, cada ano, a minha sobrinha venha de férias e os tire das caixas, cada vez com menos possibilidade de que tal aconteza)...
Deixei aquel mundo. Sobrevivim. Sigo a precisar calma nos cámbios, continuo na necessidade de que o meu mundo esteja mais ou menos ordenado. Aprendo nos últimos tempos a viver em situações mais fluidas. Fai-se o que se pode. Acho-te de menos. Quê se lhe vai fazer.
posted by Sao Tomé 20:21
Que corra o ar
Abro a fiestra para que o vento corra e mova livre e selvagemente as lámpadas de papel no salom e no corredor e chegue à cozinha e abanee o rolo de papel que colga e faga sonar o novo colgante que, cum Buda risonho, colguei onda a fiestra.
Sento-me e olho a casa. Decato-me por fim de como conseguim libertar espaço no salom. E ainda continuo e arrumo livros, mudo as sabas, frego a louça, ponho mais umha lavadora, saio um bocado desta maldita parálisse que leva tempo de mais a me complicar a vida e sinto em calma por primeira vez em muito tempo.
Nom deixa de haver tristezas, e penso em certa cadela que ficou durmida enriba minha nada mais me conhecer, e na mágoa que deixa. E penso na gana de acarinhar que vem neste vento que ainda quer contar que é verao.
Na noite lembro de ti e daquela viagem ao Sul no comboio e das casas de Granja, e como te quigem entom, e penso em conta-lo cá. Mas há ser para outro dia, agora toca deixar que corra o vento.
Que nom pare, que leve as tristuras, que me limpe a casa, que me tire o sono esta noite e traia boas novas e também licor.
posted by Sao Tomé 19:02
Quinta-feira, Setembro 23
Na mesma velha luz
Agardo um carro ao pé da estrada. Diante minha, olho a mesma paisagem de há tantos anos (edifício mais, edifício menos). É na outra banda do rio onde bate a luz, coa força das ondas num trevom (ventos de força sete), totalmente inclinada, confirmando a chegada do tempo das lentelhas. É umha tarde coma tantas quando, nos tempos do licéu, antes de haver passeio fluvial, saia a caminhar por onda o rio, via as obras do auditório, as poças das beiras, caminhava por onda os camiões e sobre a terra e olhava sempre aquela luz a partir as árvores, as casas, as pessoas, impenitentemente em regiões de sol e de sombra, fazendo dialéctica co mundo tudo.
Olho também esse espaço imenso de céu, e reconheço ali, naqueles poucos minutos, a olhá-lo tudo de novo, a minha tristura, o dessassossego este dos últimos tempos. Reconheço-me no eu daqueles anos. E é esta a velha sensaçom, a perda de controlo sobre o contorno, a impresom de que o mundo vira rápido de mais e que fiquei fora da volta.
E tivem que chegar ai, nesse momento para me decatar dessa velha natureza. E ainda dou sorrido ao me saber, em tam triste jeito de imadurez, fiel dalgum jeito ao eu que fum. Nesta altura do partido. E, coma quando naqueles tempos enfiava o caminho de volta, sae-me da boca a mesma velha cançom. Rumbo Sul de novo. Mas agora fica ao Norte o meu fogar ou o que for e lá é que vou. Sabendo que se ham estabilizar as revoluções.
posted by Sao Tomé 19:10
Quarta-feira, Setembro 22
(Acotaçom: Mais perto)
< Do mesmo jeito que naqueles nossos poucos dias de combóios a cruzar chairas alheias, a lua semelha mais grande ultimamente (Equinoccio).
A questom, para quê o negar ou lhe dar mais voltas, é que descobro noite a noite que te acho de menos, embora nom num jeito grave. Que também é por ti que vou contando os dias. E que agradecia um tempinho a durmir ao teu carom. >
posted by Sao Tomé 19:38
Fragmento: Pãozinho
' Estou a ler Sandman. Como bem dizias, "desde que leio Sandman o meu Universo semelha mais coerente", como deches no cravo. Venho de rematar As Benévolas.Lembras a cena na que Sonho e Morte estám sentados ao carom, no meio da tormenta, e el di-lhe, ¿a última vez que falamos disto tiraches-me um pãozinho. Toma." E materializa um pam e da-lho.
(Lembras?).
Mando-che um molete ai, por se me fas o favor e mo queres atirar
Colho mais um par deles e reparto-os entre os danificados por esta minha dificuldade de me enfrontar às mudanças, lembrando essa pequena história.
Olho cá na parede as tuas fotos, e a sensaçom de socato é de que fai muito tempo que marchaches, de que pertencem (especialmente essa do nosso entroido último) a um passado já remoto.
Encontro por fim um pouco de temprança (e nom será de abondo para o que ainda fica, has ver) e acho-te de menos. Sem mais, do jeito puro em que bem sabiamos que te havia anhorar. Nom tem mal, é o justo e o necessário e irá a pior e a melhor com o tempo, bem sabes.
No entanto, senhorita Bloomfield, faga o favor de caminhar e de conquistar esse Londres que só a agarda a você, de rendi-lo aos seus pês cos seus encantos, de ser feliz. E deite cá algumha vez algumha postal, algumha lembrança, como se fosse possível que sem elas
esquecesse eu a sua maravilha. '
posted by Sao Tomé 18:04
Terça-feira, Setembro 21
No sol da tarde
Nom sei bem por quê lembro de Macke. Será neste sol que me mete gana de ver as cousas a rebordar de luz polas tardes, de andar ainda de terraça nos cafés. E sem embargo passo o tempo na casa, maioritariamente.
Arrumando, e parando, e escuitando e fazendo os olhos para ver como fica a paisagem na vossa ausência meninas.
posted by Sao Tomé 19:56
Segunda-feira, Setembro 20
Perigo: Equinoccio
Encontro por fim umha excusa estelar para explicar os tremores que me dessasjeitam a vida por toda a parte. O Equinoccio já está cá. Estremam-se as marés, estrema-se a gente.
Cuidado companheiros, agarrai-vos a quem tenhades mais perto.
Isto, também, passará.
Ánimo.
posted by Sao Tomé 19:55
Sexta-feira, Setembro 17
Pingas de chuva
Estranhamente também, no meio desta semana, a vida trae-me num estranho jeito de compensaçom, recados e novas pequenas de pequenas e lindas amigas. SMS, Msg, correios, postais... Nom sei se estou a criar alarma através de Trapobana ou se é casualidade, nem sei se existe a casualidade. De qualquer jeito, som pingas e pingas de chuva que chegam de seguido a esta pequena paisagem que fumega um bocado ultimamente.
Obrigado meninas por vos lembrar de mim, por me achegar esse pequeno carinho e transmitir ánimos, pola água. Obrigado a todas.
posted by Sao Tomé 19:01
Setembro, Destruiçom
Na parede, onda a minha cama, um calendário co retrato de Destruiçom dos Eternos (um curioso apelido este, Destruiçom Eterno, que este é masculino) lembra-me que contiuamos em setembro. A sua cara, coa inevitável barba de três dias olha-me coma a pedir desculpas pola sua condiçom. A pele azul cuberta de cicatrizes. Nas suas costas, o rosto dum lobo cos dentes arreganhados olha-me ameazador. Sei que tenhem razom, é ajeitado o retrato para este mês, no que a sensaçom na cabeça é um bocado de pnéumático queimado.
Mas, afinal, sou consciente de que a destruiçom nom é mais do que cambio, quero que seja rápido, embora estranhamente, nom tiro da cabeça as palabras do Bukowsky...
(Linda, tú me has traído esto,
cuando te lo lleves
hazlo lenta y suavemente
hazlo como si estuviera muriéndome en sueños en lugar de
en vida, amén.)
Nom é para tanto. Cámbio.
posted by Sao Tomé 18:44
Quinta-feira, Setembro 16
Despedida (primeira)
Polo demais, a vida resume-se em apertar com força o copo aquel do que bebia
até que algo estala
e corre ao fim o sangue
enquanto marchas.
posted by Sao Tomé 18:01
(Acotaçom: Aroum)
<
Nascim em terras afastadas
Percorrim as montanhas, falei cos pastores
e aprendim os segredos dos ventos.
Naviguei.
Nos largos céus nomeei as estrelas.
Carreguei os pesos do saber.
Em discussões com homens santos
figem caminhos desde o princípio dos tempos.
Hoje eu,
Aroum O Rashid,
governo o Império dos Fieis
desde a cidade de Bagdad.
E pode tudo ser mentira
mas certo é:
Desde o fundo
chamo por ti cada noite
Sherezade
para que me contes o conto
de que nom fica nada além nós.
Vai já para cinco anos escrevim este poema. Há uns dias, aquela Sherezade, (já outra, já mais velhos, já sem nos chamar cada noite, sem nos querer daquel jeito), agasalhou-me cum livro de contos para me lembrar a minha condiçom de Aroum. Do mesmo jeito que há um ano eu lhe dava outro coa intençom (o rogo)
de que nom lhe faltem nunca
histórias para me contar.
Por muitos anos.
>
posted by Sao Tomé 17:58
Quarta-feira, Setembro 15
Destilado
E afinal hoje devém tudo nidio cristaliza neste lume teu e meu que alimenta a tua partida umha tristeza pura e destilada que me pousa no fondo do estómago coma a resaca da canha e me carrega os olhos bem de bágoas e dispararei um dia berros e sonhos na noite bem carregado também já esta vez sim de certo e de verdade com alcol sério e nom apenas coma agora coa mágoa da tua partida e desta caste de derrota tua e minha tam transparente que me corta os beiços e racha os pulmões coma o ar quando amanhece e nom estás e nom estarás já em tantos amanheceres e quizais devia ter-te amado noutro jeito quizais mais apertas mais achegas mais calor mas agora fica assim tudo neste lume congelado coma nós nós frios no lume da manhá
mágoa
posted by Sao Tomé 18:57
Terça-feira, Setembro 14
Lavadora II
Chega-me desde o sempre deliciosoVelaqui um estupendo poema tirado de La Mirada Oblícua sobre a colada a conto da história do arrolar da lavadora.
Dudo entre tender la ropa fuera
o dentro.
Hay nubes que pasan veloces
y un sol que también duda
entre brillar o esconderse.
Miro por la ventana con el cesto
de ropa mojada en el regazo.
Fuera
o dentro.
Brillar
o esconderse
E ainda engade a remetente, como gregueria,
"poñer unha lavadora é facer a dixestión da casa"
Quanta razom, quê comprendido se sinte um...
Obrigado, menina. (E ainda será cousa de ponher comments, para recever melhor este tipo de cousas... ).
posted by Sao Tomé 20:47
Sapiências e ignoráncias
Sei achar de menos e fazer os altares a aquela grande desaçom que chamaremos a tua ausência, viver nesse espaço ermo e na noite pensar nas cousas que ficárom pendentes, e quê lhe vou fazer se fas parte daquilo que mais importa.
Sei sobreviver, ponher-me em marcha, dançar cada noite e pensar com menos tristura que nom andas cá, que era bom partilharmos também algumhas pingas dessa chuva e desse concreto licor.
Conheço polo miudo o quê acontece coa cidade, os amigos e o mar, tenho fartos antecedentes na nostalgia de cousas pequenas e parvas.
Som especialista em me recrear nas enrugas que me ham sair a te lembrar, em alouminhar os pregues que molestem na alma vidos do teu oco, em escrever sobre essa nom presença (polos sete buratos da minha cabeça) e sentir-me velho e ter esse prazer de olhar para o solpor e -também em certo jeito- teatralmente pensar em que che tenho longe, e que estou ainda vivo e que é difícil de qualquer jeito
e que Compostela está muito linda nesta época do ano e que sempre nos restará Sam Roque, ou Sam Pedro ou Santa Tarasca
e Cesária e Belle&Sebastian ou Jazzamor ou Oskorri, ou Caetano ou Moreno Veloso respectivamente.
Sei em fim te achar de menos em bom e clássico senso.
E sem embargo.
Ignoro cómo fazer nestes dias, quando cada gesto e cada palavra voltam-se pessados, carregam-se co significado ineludível da despedida e fam sinjelos os equívocos e podem nos mudar a vida sem o querer.
Cómo levar este estares ainda e já nom te ter, cómo nadar nestoutro mar.
E há ainda tantas outras cousas por fazer e por amanhar e está setembro a tezer cá as suas redes novas, das que poucos traços ham sobreviver além do inverno.
Nom dou feito, e dis que estou noqueado, e perguntas qual é problema.
E som só pequenas cousas (lavadora, frigorífico, sinussite, trabalho, chamadas pendentes, movimentos tácticos arredor, trevões) e que afinal resumem e que estes dias nom sei viver.
Pido desculpas pois e prego nom se me tenham em conta à hora de fazer balance na convivência.
posted by Sao Tomé 18:49
Segunda-feira, Setembro 13
O arrolar da lavadora
Timbram numha hora um bocado indecente para ser domingo. O meu pai aparece de supressa e tira-me dum curioso sonho erótico. Num jeito de ajuda internacional tam necessária nestes dias (obrigado também à ONG Canhas, Conversa e Piquenique por me apresentar gente interessante com cadelas mimosas incorporadas), trae umha manta para o inverno que se achega, umha caixa de leite... E o mais importante. Porta na sua coxeira leve a anceiada correia da lavadora. Fazendo por lhe ajudar e por aprender o mecanismo, mais umha vez descobro a sua fabulosa inteligência práctica à hora de trabalhar, e finalmente pousamos de volta o maquinilho no sítio e vemo-la por fim tremer co movimento. E trae o som do tambor a virar e virar (Viramundo) umha sensaçom de posta em marcha para tudo arredor.
Ao marchar, ponho La Fusa, voltando assim coa música a tempos que corriam a bom ritmo, ponho a primeira lavadora desde que marchei de férias. E escuito a Vinícius e escuito o movimento da máquina que me pom em marcha a vida, a um ritmo meio de dous lavados por semana, mareia lenta e perpétua.
E vai sol, e vem nesse jeito simples umha ledízia pequena que limpa e centrifuga e acompanha a tristura que nos últimos dias me punha nuvens na olhada e no pensamento.
E fico triste e olhando o sol nos telhados, no arrolo da lavadora. Ao jeito dum samba com beleça. ( ' Entom a vida é por essa banda coma a música dos ciganos da Romania, coma umha samba co seu bocado de tristeza, umha tragica ledízia ' - conto-lhe à Margarida-).
Afinal tiro-lhe umha fotografia à colada na que dá o sol, e no fondo das cores vivas da roupa húmida, vem-se as hortas.
posted by Sao Tomé 19:41
Sexta-feira, Setembro 10
(Acotaçom: Cheminés)
< Leio a descriçom de Lovecraft dumha dessas vilas de New Providence que povoam as suas histórias. O bom friki americano fala das casas do século XVIII coma de antigüidades vidas da noite dos tempos.
Eu penso que onda a porta da minha casa há um escudo que há ser do XVI. Que o meu caminho diário está beireado por construcções quase medievais. Que cada dia olho essa catedral nascida há já oitocentos anos.
E lembro um dos primeiros lugares que possuim em Compostela. Teria eu menos de treze anos e vim visitar o meu irmao. Daquela a cidade eram anacos inconexos: A faculdade de História. A rua Pexego de Abaixo e o muro do convento. O obradoiro, anacos da catedral.
E tinha eu gardado, coma num sonho, umha rua afastada, onde havia um bom anaco de céu sobre o que se recortavam as imensas cheminés das casas dumha banda e árbores pola outra. E lembro o meu irmao a me falar daquelas cheminés anormalmente grandes para o meu entendimento e da sua época de origem.
Amei entom aquela rua, e esquecim-na. Fará dous anos que a recuperei, encontrei o seu lugar, lembrei o primeiro contacto.
E só as suas cheminés, as suas casas abandonadas coa erva a lhes medrar nas portas e nos telhados. Só os tendais cheios de ferrugem poderiam fazer tremer o Lovecraft com peso do seus anos, coa sensaçom de vida contida e acumulada que ainda possuem. >
posted by Sao Tomé 18:28
Quinta-feira, Setembro 9
Biombos
Há que correr as cortinas. Ponher biombos, agochar no fundo dum a possibilidade de sentir dor e achar de menos. Tapar a cara co abano, ponher as gafas de sol, sair pálido ao sol e ficar sozinho a olhar o horizonte co vento. Ponher de novo as cicatrizes e amosar-se sério e calado.
Nom é cousa apenas pola morte de Manuel Maria. Os dias útimos estám a ser intensos para todos. Trebóns e ventos estranhos, trabalhos intensos, partidas anunciadas ou de surpresa, rupturas... Transições, em fim, dias do meio que aceito, e interiorizo, e levo. Mas nom me pidam festas, que temo amolar a alguém. Olho o contorno alerta, oculto partes de mim. Fumo um imaginário cigarro, e hei beber enquanto passam e começamos umha outra cousa.
Fago por nom o ver coma nada grave, alomenos nom mais grave do que os dias prévios, quando neno, a começar a escola.
posted by Sao Tomé 20:42
Quarta-feira, Setembro 8
A postal de Praga
Há umha semana encontrava na escaleira esta fabulosa postal, lembrança que Carmela me enviava desde Praga pola viagem que afinal nom puidemos fazer juntos lá.
Casualidades da vida, descobro a travês de Ascárida o autor, e novas imagens do Saudek, realmente estupendo em geral.
Quanta gente com bom gosto há ainda polo mundo, bom Deus! (e que boa fortuna, conhecer algumha dessa gente, para compartir conversas, cervejas, postais, livros).
posted by Sao Tomé 20:47
Terça-feira, Setembro 7
Sonhos volantes
Nas últimas semanas sonhei já várias vezes com aviões. Vários tipos de aeronaves cruzam os meus ceus nouturnos e normalmente azuis. Na noite mais tumultuosa, estava eu num aeroporto secundário e aparelhos impossíveis jurdiam de todas as partes, enchendo o céu coma nuvens de moscas. Afinal vários deles chocavam e caiam, sem que ninguém se estranha-se. Havia-os a reacçom, com hélices enormes, coa fuselagem a colgar dos motores... Eu olhava-os desde abaixo, estranhado e sabendo que nom podiam existir.
Outro dia um Canadair semelhava estar a piques de se estrelhar lateralmente contra a água, e finalmente realizava umha amerizagem impossível lateral e ficava no lugar
De novo eu era consciente de que isso nom podia ser possível.
Ainda houvo algum outor aviom no sonho, acho que também nalgum intre me decatava da irrealidade da situaçom.
Nos últimos dias parou o voo. Nom sei se terá a ver que merquei, coma mínimo agasalho de aniversário, o P-51 da famosa colecçom de aviões da II Guerra Mundial.
Poida que fossem simplesmente os ecos inconscientes dos meus voos de férias.
Ao melhor som esses aviões e as suas impossibilidades um estranho símbolo sobre a realidade e as eternas ganas que conservo de que poida ser diferente.
Nem sei. Tenho pendente conseguir esse Stuka...
posted by Sao Tomé 22:18
Segunda-feira, Setembro 6
Veredicto
Corro baixo a chuva, a golpe de sábado, entre mulheres armadas com corpinhos e chambras brancas de amplos escotes. As ruas enchem-se de água, e a pesar do catarro, deixo-me molhar e caminho a modo até chegar a casa. Por muito que cante, e Rapo apoie, que som Chuvas de Verao, sei que já nom é certo.
A pesar do calor, e da data.
Ainda que desde outra fiestra olho a tarde, e figueira está bem verde, e a vide ainda tem em forma todas as folhas.
O veredicto de outono já é firme.
A cabeça, luitando por se aclimatar (entre o moco e os dias que começam luminosos e rematam cedo) oscila e dançam os pensamentos: O pequeno dessacougo da minha relaçom cos meus amigos-heróis cotiáns; a calma final de estar por fim sozinho; o stand-by que inspira a televisom; a inquedança de te ver ou nom te ver (e essa é a questom) e quê fazemos logo.
Os sentimentos seguem bem o ritmo, que na cabeça constipada é quase de valsa: um-dous-três, um-dous-três.
(Novos indízios apoiam a teoria: sinto que é época de que comecem a se acumular nas beiras da banheira os botes vazios de gel, vejo um paraugas fantasmal sobre a cabeça dum homem que caminha na primeira manhá.)
Quase ao final, tudo devém em olhar de novo pola fiestra, desta volta já de noite, enfundado na chaqueta velha de estar por casa.
E sentir-me por fim no lugar e no momento.
E já é outono
e já (por fim) cheguei.
posted by Sao Tomé 20:17
Sexta-feira, Setembro 3
Back in the USSR
Volta completa já. Tenho cá os primeiros síntomas de catarro, producto do precipitado retorno das férias e do stress que, como muito bem sinala o David na sua breve visita, invade a cidade toda.
Vai frio, e quando hoje almorço contendo as pingas que caem do meu naris, entra-me na cabeça a cançom,
estou de volta nesta Unión Soviética, a burbulha compostelá.
Flew in from Miami Beach BOAC.
Didn't get to bed last night.
On the way the paper bag was on my knee.
Man I had I dreadful flight.
I'm back in the USSR.
You don't know how lucky you lucky you are boy
Back in the USSR.
E ainda bom que nos breves passeios comprovo que continua cá, quiçais mesmo mais surprendente, a beleça da ucraínas que percorrem as Algálias, as moscovitas que povoam Sam Pedro, as georgianas que baixam pola Hortas...
Tira a balalaika, menino, passa o LK e imos deixar que passe o frio e o catarro.
Nestes tempos, mais ca nunca, cómpre manter os camaradas quentes.
posted by Sao Tomé 17:52
Quinta-feira, Setembro 2
(Acotaçom: Fragmento)
< "...Direi, pois, mais umha vez, que lembro de ti de quando em quando. Quiçais nom che saberia dizer cada quanto. Sim, poida que cada dia tenha ainda um anaco de ti. Quando abro o correio, quando chego a casa e olho se há algum envelope na escaleira, quando olho as estatísticas de Trapobana só por saber se passaches lá desde o Sul... som os teus anacos, embora haja outros correios, outras postais que venhem e que agardo.
Levo-o bem, nom te preocupar, simplesmente gostava de saber de ti (isto já cho digem) e penso algumha vez que, de novo, gostava de ter ver. Nos últimos tempos saem nas conversas abondosas, viagens varias a Porto, juro-che que nom som eu quem as propom ou as narra. Descobro ao falar que Porto fica contigo no meu magim.
Pergunto-me em boa medida (e dirás tu, que quê me importará a mim) que farás finalmente para o vindeiro ano. Parecerá-che estùpido, pero nom gostaria que os problemas familiares impedissem a tua marcha a Itália. Nem sei por quê, quiçais seja um destino que já che tenha fixado, quiçais seja só o facto egoista pensar em te ir ver lá.
Por acô a vida segue bem. A gente está muito ocupada, a cidade mantem-se num estádio intermédio no que alguns turistas abandonam as praças e já cruzo os primeiros estudantes polas ruas. Ando com fame de gente, de me adentrar nesse novo curso que, embora já nom rege a minha vida, sim condiciona boa parte da mesma. Leio muito, escrevo menos, a casa continua o seu proceso de degradaçom. Coma sempre, em fim." >
posted by Sao Tomé 20:15
Quarta-feira, Setembro 1
Afinal
Surpresa!
Acadárom-no. Fum víctima ontem dumha confabulaçom, e o que fora um dia normal e mesmo um bocado ocupado (transcrições, arranjar electrodomésticos, compras), com a grande ledízia de ter a Íria na casa, pouco tempo, mais umha vez.
E afinal, na de Tino, todos cúmplices, juntamo-nos, e bebemos um bocadinho de mais, e escuito avermelhado o "parabéns para você", e para surpresa de tudos (também minha) apago as candeias todas cum único soplo instantáneo.
E Jocas co seu cabelo novo (nom acabo de me acostumar) :-), e Belém co trabalho novo som as maiores ledízias. E Laura que nem sei de onde tirou o oco, e Tino e Bibi anfitrions supremos. E Fer depois de tanto tempo, e Íria...( passamos ela e mais eu estas horas um bocado acoiraçados, alternando alouminhos e distáncia, já tudo fedendo à vindeira despedida, transiçom, mudaças, mágoas.)
Obrigado, companheiros.
posted by Sao Tomé 19:30
O problema
Sendo sérios, devemos reconhecer que, no fundo, o problema é achar de menos. Mentres nom acontece tal, tudo corre bem. Os intres som bons, os bicos sabem bem, e nom acontece nada.
A questom é quando achamos em falta os bicos, os intres, as conversas.
É aí quando se complica a vida, e se faz ao tempo mais fonda, mais perigossa, mais subtil.
Sem ser exactamente isso tudo, dim-lhe voltas à questom nestes dias recentes em que ia eu passando sozinho de cama em cama sem encontrar em ningures a tua aperta de sono, a tua respiraçom de animal pequeno ao meu carom, que sim podo dizer que achei de menos.
O demais, em realidade é só gana de te ver, que nom é o mesmo, nom dói.
posted by Sao Tomé 18:54
Stand by
Diria-se que foi comum o passar umha má noite hoje.
De socato está tudo acô, e sem embargo nom acabo de entrar em todas as cousas.
Continuo um trabalho de copista que me impede caer nalgures, que fai passar as horas e lhe dá um sentido pequeno a estes tempos
de estar e nom estar. Bricolagem, recados, conversas, agasalhos e por-se ao dia, e ninguém semelha ter aterrado ainda dos vós, e todos estamos como meio durmidos, e falamos a modo sem saber o quê pensamos, embora seja sempre outra cousa.
Transiçom, apousentamento dos dias, stand by mas
em realidade quiçais o único problema real seja que faltas.
posted by Sao Tomé 01:54
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Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro
"Si o vello Sinbad volvese ás illas"
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