Trapobana

Sexta-feira, Julho 30

Devoluçom da feira



Nos últimos anos ir às verbenas e às feiras é coma sofrer certo retorno a um passado que já nom conhecera. Aos poucos, desde há uns dez anos, estám a voltar a estes lugares, onda as atracções cada vez mais modernas, onda as que sobreviveram (carros de choque forever), vam ocupando espaço os velhos espectáculos da rua, os antigos productos.
Os postos de venda de roupa peruana no chao, agora os DVDs piratas, os caloteiros que vendem bonecos que dançam sozinhos ao som da música, os joguetes que se movem por corda e que só me dam tristura. Os artistas que assinam livros, graos de arroz, que tecem os nomes em panos. Malabaristas, artesáns do coiro, conseguem a atençom dos passeantes do século XXI. Os exóticos sudamericanos que tocam temas étnicos e, a última descoberta, um conjunto de supostos índios norteamericanos, com adornos de plástico e um atrezzo estandar de mais, conseguem de qualquer jeito reunir a gente arredor que olham o mistério dos nativos da outra banda do Oceano, dum jeito semelhante a como fariam há cinco séculos. Espectáculos de monicreques autofinanciam-se sem subsídios coas doações dos espectadores, coma quando os via a minha avoa. Coma há 300 anos e mais, nenos e maiores olham maravilhados os bonecos que se movem coma se figessem música.
E som de fóra todos os que nos voltam esta nova velha feira. A devoluçom vem-nos de Sudamérica, do leste de Europa, de Asia, de onde os imigrados vem os eternos ocos destes mercados, que acô já se abandonáram por pouco rendíveis.
Ainda virám de volta os cantares de cego, os rimadores improvissados, a venda de romances, os escrevedores de cartas, os ursos que dançam, o circo, as trapecistas, os palhaços, os monstros de féria.
posted by Sao Tomé 19:04

O Vicino interior



A noite, que pretendia longa e fera, de bar em bar e de birra em birra, rematou, sem muita deceiçom mas com cansaço, cedo e sozinho na casa.
De qualquer jeito o sono nom acompanha, (cousas da lua) e sínfanos, foguetes, frio e calor fam que acorde cada três horas.
Numha dessas decato-me de como se me introduziu Bomarzo no lusco fusco do sono. Por um anaco eu fum Vicino Orisini. Num sonho repetim o seu torturado pensamento, conspirei, temim pola minha vida, envejei e sofrim pola minha deformidade.
De qualquer jeito, nom se pode escapar. Todos temos um Vicino no interior, o medo ao exterior, a consciência de corcovas próprias. Segundo o romance avança, mais me dói suspeitar o jeito em que gosta Íria do livro.
Nom acho que pague a pena a vida nesse jeito por muito fermosos que sejam os monstros que ham ficar depois. Sinto-o polos Vicinos.

posted by Sao Tomé 18:21

Quinta-feira, Julho 29

Os anacos



Velaqui que semelha que aparece umha parte de mim que te quer achar de menos.
Embora já está tudo bem, as cousas claras, as distáncias voltam ser apenas de quilómetros e sabemos onde estás e onde estou (vaiam todos para a casa, discretamente, nada aconteceu).

A pesar disso tudo, há um anaco de mim que anceia dalgum jeito jogar a namorar-te, te escrever sabendo como és boa na brincadeira, e como amagas e fintas e atacas e escondes a mao (como bem deve ser nestes casos) e ao tempo lês e capturas todos os meus movimentos, companheira.
Há esse anaco de mim que te quer dançar. E para além.

Tenho umha parte que pula por te falar desde perto em dias grisses coma este que tenho. Que quer deixar-che ai calor de apertas para quando caiam as folhas e tampouco nos vejamos. Que quer também fazer-se achar de menos para ao tempo aquecer-che desde a lembrança durante as jornadas de vento, minha amiga.

E bem mos conheço esses fragmentos, som cousa minha de velho, de jogo e de carinho. E sem embargo.

Há ainda um outro aspecto, todo el chegado agora que partiches, que nom sabia até hoje mesmo.
Um eu que quando me encontra sozinho ataca-me dizendo que é mágoa, que nos haviamos entender bem tu e mais eu menina, que podiam ser as cousas doutro jeito e que é cousa de se laiar e sospirar polos recantos e pôr-se triste, e quê erro da vida, a tua falta.

E andam assim os anacos a se mover em mim que, contente, canso, ocupado em pequenas fazendas, rio cos amigos, jogo os jogos pequenos, leio, trabalho, como, goço, durmo.
E em geral, deixo-os mover-se com o vento, sostenho coma sempre o leme e anoto-os na bitácora, por exorcismo, porque os saibas e também por nom os perder,
que som teus e som meus e som de agora e só de agora e só de nós.

posted by Sao Tomé 18:41

Quarta-feira, Julho 28

Na recta final

O termómetro da casa marca vinte e nove graus no interior. Fago por durmir espido, coa fiestra aberta, sem sabas. De fundo musical, desde a Alameda soa vagamente esse terrível engendro que titulam "Bambú. Ecos do torrente da Tómbola Imperial, sereias de carros de choque, berros das distintas atracções ponhem-me a banada sonora aos últimas páginas de Bomarzo e aos primeiros intentos de prender no sono.
Afinal consigo-o, e durmo melhor, mesmo anainado pola feira, do que nos últimos dias. Mesmo co que deveria supor de inquedança as tuas últimas novas.
A recta final antes da férias é esgotadora. No entando, acumulam-se os blogs sem escrever ou sem publicar, do mesmo jeito que as despedidas, o trabalho e os compromisos.
Aperto-che um bocado e fago por fazer. Doem-me as maus especialmente estes dias.
Mau será.
posted by Sao Tomé 20:46

Terça-feira, Julho 27

A lei de Murphy

.

Eu já o sabia, mas tivem que o fazer o mesmo. Só fixo falha dezidir-me te escrever e enviar a carta reclamando explicações e respostas para chegar hoje o teu correio contando histórias dignas dumha telenovela.
Já o dizia Fangoria...

La vida se detiene tras el cristal
la Ley de Murphy no falla jamás.

Está visto que é tempo de continuar, ir dançar, beber até tarde nas terraças e jantar cos amigos e durmir a sesta e estar canso e continuar.
Beijos.
posted by Sao Tomé 19:09

Segunda-feira, Julho 26

A minha mani



Já ia muito tempo que nom ficava rouco de berrar numha manife. Aconteceu finalmente este vintecinco, por culpa destes irresponsáveis do FREAC (O Santo das Croques os guarde por muito tempo). Participei também nesse evento histérico (quer dizer, histórico). Passei também pola ruela de entre rua, entoei o novo hino, imitei o andar de Fraga e cantei que para ser feliz quero um Carod. A crónica é cousa doutros. Pola minha banda assinalar que rim bem, que gastei energia abonda e que possibelmente nom puidesse vir o evento num momento melhor.
Desaparecer no meio desse pequeno coleitivo, rir, tirar um anaco a nuvem que o calor figera pousar na cabeça, andar no meio da gente que só conheço a meias, ou nada, que nada exige e que só quer rir.

Obrigadom, Subcomediantes, Aduaneiros e companhia.
Vemo-nos na vindeira.
Freaking for Galiza!!!
posted by Sao Tomé 21:11

Caminho sozinho



O sol cai a pico sobre a feira. Mesturam-se as vozes, os idiomas, a bandeiras. Mergulho-me mais um ano na multitude, participo religiossamente nos actos, reclamo pátria (e quero frátria) e sem embargo. Gosto hoje de caminhar sozinho, de vagar de companha mínima em companha mínima, de encontro em encontro. Sem embargo, o sol dá-se palido e é quizais essa cor pálida, esse manto que tinge tudo e fai que nom haja rem que seja totalmente certo. Ou será essa lua que está em toda a parte e permite que a noite corra com risos e boa companha mas sem grandes ledízias. Com pequenos dessencontros que a embafam e incomodam sem a estragar.
Opto hoje pola calma e caminho tirando a sozinho (embora seja a soidade a que crie a soidade). E devo dizer que nom é por ti,.
Embora é certo que recupero Berrogüetto. Que lhe dás sentido completo a canções que ainda nom o tinham, e fico-che obrigado também por isso.

Se che canto nom me escuitas
Se te chamo nom respondes
Nom me colhes nem me deixas
Nom me deixas nem me colhes.

Mas, sabe que entre lusco e fusco, nom ficarei agardando. Caminho sozinho. Só ando em boa companhia.
posted by Sao Tomé 01:27

Domingo, Julho 25

Mareia agora

Efectivamente. Ainda nom era tempo, pero diria-se que a Lua já está cá.
Anda a gente hipersensível, busca mimos, molesta-se e responde com rapidez. O meu irmao some-se (signo final) numha das suas crises de silêncio.
Há fame e a noite estoupa. Achega-se a gente, vam os olhos detrás de quem se nos cruza, perceve-se de socato um maior atractivoem todo o mundo. Todos encontramos pola rua lotes de gente que nom estamos certos de se devemos saudar. Estranhado em mim mesmo, fico por fóra de tudo, sem estar mal com nada. Agradeço um bocado nom estar com ninguém, rio pouco, nesse meu estado tam de Lua que já havia tempo nom passava por acô.
É tempo de nom se fazer caso, de nom lhe fazer muito caso a ninguém (regra número um) e nom ter em conta os rozes que nascem agora que o satélite anda mediado, e vai calor.
Em geral incrementam-se também as esperanças, as ganas.
E sem embargo estou já farto de saber que é estraordinário darem estas noites para algo. E será melhor se retirar discretamente da mareia, agardar a sermos todos de novo donos de nós ou de algo que se lhe pareça, e entom mover-se, e dançar, e tomar decisões breves, arriscar achegas ou mandar à merda o que haja que mandar lá.

posted by Sao Tomé 02:11

Sexta-feira, Julho 23

Espertar com sede

Há dous dias a lua era a marca dourada dumha unha no céu. (Crescente).
Algo muda.
Um lote de gente lembra-se de mim ao mesmo tempo.
Recupero contactos longamente perdidos, as conversas medram, as possibilidades multiplicam-se, afiançam-se projectos.
Poderia dizer que ergo um bocado a vista do chao. Que deixo de olhar cara o Sul do que te agardo.

Dalgum jeito vam aparecendo as ganas de fazer cousas, a sede de vida.
Dalgum jeito, aos poucos vam voltando as arelas que cubriras com a tua ausência.
Um jeito de vida, um jeito de sede.

posted by Sao Tomé 18:31

Quarta-feira, Julho 21

No jeito

Reconheço-o, levo uns dias que me custa escrever cá.
Tenho atrancados um par de posts ou três, feitos e sem publicar, mas nom convencem.
Polo demais, nom deixam de acontecer cousas que me fam pensar, nom faltam momentos ajeitados para os transcrever e os gardar, nom há tristezas novas. A vida segue igual, é a escrita a que falha um bocado, e nom se muito bem por quê.
Quiçais sejam os ventos (Nordés, Noroeste, finalmente Sul) que nos acompanham estes dias e que pom hipersensível a gente e deixam em geral umha sensaçom de termo meio, de nada extraordinário.



Em geral nestes dias emociono-me a olhar as andorinhas que voam tolas e canto mais umha vez
Se voaras mais ao perto
(o que nos quer a andorinha bem gostava de saber).

Isso é tudo.


posted by Sao Tomé 20:54

Terça-feira, Julho 20

Anjos voa

Um cruzeiro polo Mediterráneo arrebata-nos a Anjos dos ecráns. A orfandade na que algúns ficamos é difícil de aceitar, a incerteza do seu retorno nom ajuda a leva-lo bem. Agardo polo menos encontra-la algumha vez no correio, saber das súas flores e dos gatos, e da terra que vê ás vezes quando olha para o cham, como ela mesma tem dito.
Ficam-nos algúns lugares. Aquí, Paleón, Enfermedades Modernas, Camiñando até o solpor, Toxos e mimosas, Orballo...
Resistiremos, mas nom escapes muito longe, menina. Boas férias.

posted by Sao Tomé 20:48

Tarde em sostido



Durmo com a cabeça no teu colo enquanto tu les Lord Jim e soa Tryo. Rematámos as picotas, os pementos, as pasta recheia de cogomelos. Finalmente sumas-te e enchemos o sofá de sono, e decatamo-nos de que é a minha respiraçom mais acelerada que a túa.
De socato som as sete e a sesta prolongou-se de mais. Acampas na minha casa toda a tarde, atopo-che aínda durmida ao voltar, abrimos as cervejas, que venhem mais visitas, e chega a ceia, e imos ao concerto e ainda lhe tomamos umha e finalmente fechamos a sobremesa 12 horas depois de que chegasses para jantar. E som cousas pequenas assim (as horas que passam sinjelas contigo) as armas que temos para que fique a vida em sostido um bocadinho mais.

posted by Sao Tomé 19:35

Domingo, Julho 18

In between days

Cansaço. No final da semana, nesta pequena sensaçom de abandono, nesta dor de moas, nas costas tensas e no trabalho intenso.
Enquanto nada novo começa, enquanto vai passando algumha esperança e nota-se a viragem geralizada que dam todas as vidas ao meu redor, camuflo-me um bocado nestes dias do meio, um bocado espectante já por todo que nom só por ti.
(Go on go on
Just walk away
Go on go on
Your choice is made
Go on go on
And disappear
Go on go on
Away from here)

Subo por fim ao monte, mergulho-me, vem a noite, penso que nom estás, fago por me socializar um bocado (e nom dou feito), aturo a pé (mesmo sem Rei Mago) e, finalmente, deixo que seja Robert Smith quem se laie polas minhas mágoas de amor, que tampouco som tantas nem tam graves à fim.

(Come back come back
Don't walk away
Come back come back
Come back today
Come back come back
Why can't you see
Come back come back
Come back to me)

posted by Sao Tomé 05:31

Sexta-feira, Julho 16

Notas ao pé

Martim, Grande duque de Branco e em Botelha, informa-me do significado meteropático do voo estranho das andorinhas destes dias.
"Os voos baixos e rápidos das andorinhas, presupondo já q esta foi a actitude nelas observadas, é preludio de choivas ou tormentas, o motivo, se nom me equivoco, é que as variacións na presión atmosférica que vorecem os processos borrascosos fai que as andorinhas voen a alturas moito máis baixas das habituais nelas."

E será. Até que ponto as mudanças nom nos baixarám o voo também aos demais?

Recevo também um par de fermosos correios (cheios de xabrom para esta ilha, tudo o há que dizer) que me fam muita ilusom e me levam à primeira apresentaçom em sociedade dum novo blog: Senhoras, senhores, nom deixem de passar por AQUI, umha estupenda bitácora que, como nom podia ser menos conhecendo-lhe a autora, começa bem e promete mais.
Bem vinda mais umha vez, menina.

Continuamos mentres à agarda, entre zen e zangado (quando a gente gosta é claro que a gente cuida), fico pois finalmente zengado.
Onde está você agora?

Boa fim de semana. Vemo-nos em The Cure, e no do Gilberto. E na ceia.
posted by Sao Tomé 19:05

Depois de tudo, ainda

E nom há nada que vaia espléndido na minha vida nem na de ninguém.

Mas ainda bom que volto a casa tarde cada noite. E nom vai frio. E lembro que há um ano nalgumha noite semelhante me tenho perguntado por quê nom o faremos mais a miudo. Deixar passar o tempo, que nos convidem a cear, que transcorra a noite sem planos.
Permitir a Mansamino que pague a churrascada e deitar-se um bocado mais tarde, que total só som as doze, e nom imos ter tanto sono manhá.
Mas nom, tem de ser em julho, ou em agosto. Noites de verao.

Coma a de Sam Lourenço em que nos deitámos co Louriano na estrada para ver passar as estrelas, e a pesar del cantar eu canções coma ao acaso e tu bem que as escuitavas e tomavas nota (e bem que se quis).
E ficar na praia até a fim da noite e fingires tu entom que tinhas frio. Ou ficar sentados na Cruz de Sam Pedro diante daquela máquina de refrescos que o cruzeiro amava deesperada e platonicamente (e que só aparecia lá no verao para depois emigrar quêm sabe onde).
E ainda outros anos, subir ao monte para que Marta nos digesse os nomes das estrelas. Escapar a Campo Lameiro ou a Casa dos Druidas por surpresa, e os concertos a Vigo, e ir tomar umha birra e nom durmir, e quinze litros de kalimotxo, e rematar na tua casa.
(E de qualquer jeito, entrar à hora no trabalho.)

E ainda bom, ainda bom que se quer, que se quis, que se quererá (depois de tudo ainda ser feliz).

posted by Sao Tomé 18:33

Quinta-feira, Julho 15

Sonho com-boios



Esperto dificilmente dum sonho longo no que agardo com tino numha estaçom de comboios. O lugar nom existe, mas decato-me de que é já recorrente de sonhos anteriores. Coma noutras ocasões os trens passam, fugem, chegam fóra de hora. Finalmente deixo marchar o que eu queria, (expondo-me ao enfado de Tino, que agardava comigo) convencido de que nom importa partir em realidade e que tudo há ter remédio. Passo por baixo das vias e saio à cidade, umha Compostela meirande do habitual, onde busco um velho bar onde me ofertam, depois dumha branca, a cerveja tostada especial da casa, que me leva a algum fogar por um intre e me fai esquecer um bocado que é o teu comboio polo que também em sonhos continuo a agardar.
E que é bem certo que nom importa partir em realidade.
E que toda agarda remata, seja por bem, seja por cansaço.

posted by Sao Tomé 21:16

(Acotaçom XXXVIII: Caminho ao trabalho)

< Tenho sono. -A rua está deserta, já nom cruzo os estudantes que baixavam ao instituto. Onde sempre ficava umha rapaza a agardar pola amiga uns obreiros baleiram a enésima casa em restaraçom na rua.- Durmim pouco e mal. -As andorinhas estám especialmente tolas hoje. Pergunto-me preguiceiro se nom deveria saber interpretar dalgum jeito esses voos-. Doem-me as duas maos, um nocelho, umha a moa do juiço, o pescoço e os olhos. -O obradoiro está estraodinariamente deserto esta semana. Nem cenários, nem carros, quase nem peregrinos a esta hora nem o rio de universitários apegados à Catedral.- Nom sinto ultimamente dono da minha vida. -Polícias isso sim, poucos e novos, e um tempo que quase nem é verao de tudo.- Mas vou trabalhar do mesmo jeito. -Tenho mais umha vez essa cousa indeterminada que escorre polo fondo da gorja e temo estar a piques de apanhar algo, por variar-. Mas continuo adiante, por ver quê passa, por ver se passas. >

posted by Sao Tomé 17:37

Quarta-feira, Julho 14

Il Postino (post -Neruda I-)



Reencontro-me, depois duns oito anos (se nom mais) com 'Il postino'. Começo a vê-la, reconheço-o, com a abjecta intençom de me reencontrar com Maria Grazia Cucinotta e a sua mítica cena onda o matraquinho.
Reencontro-me sem embargo, aos poucos, com muitas mais cousas.
Co Mássimo Troisi, e como há mil anos penso em que há que ver o filme em versom original, e penso que é umha grande putada que morresse.
E co Neruda que amosa o filme, divo e tenro -poetíssima, que acho lhe chamou Benedetti- , tam semelhante a como tivo que ser o real. E com os velhos versos e com Madreselva.
Finalmente encontro no filme com aquel eu pequeno que foi sozinho ao cinema para o ver, com aquel eu que tanto acreditava no Neruda, e nalgumhas outras cousas que, pola contra, permanecem.
'Ardente paciência' titulou Skármeta o seu romance. Nesta altura, paciência vai-me ficando menos, devo-o reconhecer.

posted by Sao Tomé 21:00

Acotaçom XXXVII: Il Postino (post-Neruda II-)
< Ponho-lhe o filme à minha mae, que sei que me roubou umha vez os 20 poemas, e tento-a mais umha vez, para que recupere aquela sua paixom pola leitura que tivo que soterrar onda muitas outras cousas há algo assim coma 50 anos.
Deixo-lhe o livro num recanto, coma o azar, e deixo-lhe cair que o tem lá. E colhe-o. À manhá seguinte encontro a Hermínia (91 já) lendo-o. Acho que é a segunda vez na vida que vejo a Hermínia lendo um livro (e já hei falar do outro). E seria tam sinjelo consegui-lo? A dúvida amola-me um anaco. >

posted by Sao Tomé 21:00

Viola e o poeta (Neruda III)
Com o aniversário nom podo deixar de me lembrar do poeta. O meu dessapego cara a el começou por culpa daquela minha Viola. Era Natal, numha breve e apaixoada visita (19 anos tinhamos). Na despedida, falamos de 'Os Versos do Capitam', que eu colhera na biblioteca e trouxera como única equipagem para a ver. Dixo-me entom que nom gostava de Neruda. Que acabava de dezidir que nom gostava de Neruda.
-É umha fermosa mentira. Coma mim. (sim, era especialista em frases grandes e teatrais).

Mas, aos poucos conseguiu ter razom. Comecei a ver-lhe os ocos ao poeta. Embora continua a ter a palavra entre os dedos, a capacidade definitiva de a moldear ao seu gosto, passou a ser para mim um artesam, alguém co dom definitivo, mas já nom heroe, nem exemplo, mas relojeiro, (que também é profisom de respecto). E, sobretudo, humano, com a sua desmesurada gula, os seus amores terreios, as suas covardias e medos, e correntes que o arrastrárom. Agora celebram-no como eu o celebrava com quince anos. E nom está mal. Quiçais seja o justo.
Brindemos polas suas palavras, pois.

Ela também era mentira, é certo. Tardei em me decatar.

posted by Sao Tomé 21:00

Segunda-feira, Julho 12

Tarde de verao

Parto de novo. De novo assentado numha sólida tarde de verao, aínda recuperando-me deste estranho pequeno outono -ventos do Sul- que vimos de passar. As cousas voltam-se um bocado mais certas baixo o sol e semelha mais sinjelo manter a orientaçom e localiza-las sem erro.
A pesar de tudo, andam cá bolboretas várias, nem sempre agradáveis, a me rabunhar no estómago e nas orelhas tristuras e incertezas.
A pesar de tudo, continuo a me perguntar, em vários sentidos, onde estarás.

posted by Sao Tomé 20:24

Sexta-feira, Julho 9

(Acotaçom XXXVI : A tua presença)

< Voltava a casa, um bocado tarde. Convencido de ser um ser mais ou menos íntegro, preparado para me continuar a enfrontar coa vida.

E entom atopei-te.

De novo foi difícil articular palavra. A tua presença continua a me atorar (polos sete buracos da minha cabeça).
Decatei-me entom de que é tudo falso:
Olhas e descobres-me ocos e fendas onde nom havia. Amosas que a minha forma, que julgava completa, tem em realidade umha série de recantos e de gumes que nom fam mais que agardar por algo coma ti.
E é apenas a tua beleça. Nem sequer tu. Só o te olhar e tudo o que isso convoca (paisagens, sonhos, um mundo de anúncio, umha outra dimensom).
Deitei-me insone, alterado, sabendo que é só te olhar, duvidando que qualquer cousa que puidéssemos fazer puidesse mudar a sensaçom de baleiro que me provocas. Laiando-me por nom ter ficado, nom ter feito qualquer cousa por continuar ao teu carom, atorado e torpe. >

posted by Sao Tomé 20:33

A outra zona

Na zona nova, as ruas cheiram aos gases de escape, gasolina queimada (ao jeito do campo da festa). Lá há poças fondas onda os passeios eternamente em obras (ou em ruínas). Fondos precipícios nos que máquinas antediluvianas perforam a terra entre grandes estrondos. Gente normal que caminha de presa polas ruas. Raparigas novas vestidas à moda. Bolsas da compra e lixo e gente a percurar nos contentores.

Na zona nova nom som ninguém (assim é o jeito em que o sinto). Nom estou marcado polo meu aspecto, poderia-se agardar mesmo que falasse castelán. Podo-me confundir lá cum universitário qualquer, nom cruzo cos rostos confusos que vejo dia a dia nas minhas ruas de pedra, nesse meu coto antigo. Nom levo adscriçom política, bares habituais, música da que gosto escritas na olhada.

Às vezes gosto de o fazer. Cruzar a Praça Vermelha, adentrar-me nessa baixa sem río que tem Compostela. Caminhar sentindo-me anónimo, entre comércios sem nome e bares impersoais. Agochado do céu, protegido na discreçom dos edifícios altos nos que mil prédios se acumulam uns onda os outros, e eu podería viver em qualquera com qualquer grupo e escuitar umha música qualquer (e nom numha casa única e identificábel, sozinho, escuitando canções que é estranho que soem pola rádio). E entrar e mercar qualquer cousa que nom vai comigo em qualquer tenda (sempre dá gana de mercar algo lá). Às vezes a impresom é de estar a ver outra cidade, sen ninguém conhecido que poida aparecer ao virar a esquina.
Sinto-me lá, quando o humor é tal, refugiado entre a massa, imerso num mundo alheio e que, num jeito ou outro sempre semelha passado. Sinto lá, num jeito estranho, livre.

posted by Sao Tomé 20:09

Quarta-feira, Julho 7

Tendências (primavera-verao)

Ideia:
Cómpre reconhecê-lo. A tendência geral da vida é descendente. Quer isto dizer: se nom acontece (nom fazemos por que aconteça, por ver, por provocar) nada positivo, se a deixamos ir, inexoravelmente a vida vai decaíndo.



Desenvolvimento (letras):
Aproveitamos as boas grandes ledízias para termar dela num nivel mais ou menos aceitável de equilibrio durante um tempo. Tecemos bons colchões, redes (números de telefone aos que chamar, visitas que fazer, apertas que se podem pedir, música, libros e postais e licores, e paisagens e recantos e pessoas que sabemos nom ham falhar, e aínda assim....) que amolecem a caída.
Eu, alomenos, funciono assim. Conheço bem de gente que nom, que oscilam entre os estremos, que sobem ás estrelas e baixam em caída livre. Um outro jeito de vida.
A questom entom é que, embora as minhas grandes ledízias dos últimos tempos pertimem-me aboiar, e sei que dam aínda para um bom tempo, fago-me consciente nestas tardes de stand-by dessa tendência vital (a ameaça de trevom que achega o céu, as ausências, a monotonia da gente toda ajuda. E como gostava de apareceres a me traer nova luz, e sentir de novo o movimento, e nom esta humidade que vai calando, aos poucos.)
De qualquer jeito, ponho em acçom a rede, e mando um SMS (' Informe de picotas: Poucas e muito maduras. Recomendaçom: consumir aginha ' ), e há quem fai o favor e se achega e ceamos em boa companha, com boa conversa, e venha cá mais um bocado de luz. É difícil a arte de aprendermos a amarrar a vida também coas ledízias pequenas (também conheço quem sabe).

Resumo (ciências):
Quando o tenho já tudo pensado e desenvolvido, explico-lhe a Carmela este post, e ela concorda:
'Claro, se a um corpo em movimento nom lhe aportas nova energia, para'.
Olha lá, pá, para que ía servir estudar Física! Obrigado, cara.

posted by Sao Tomé 19:04

Terça-feira, Julho 6

Fin de semana: Zen e autocarro



Num jeito estranho e rápido de me mergulhar no verao sem o pensar -o zen e as viagens em autocarro- apanho o Monbus e vou passar três horas a Cangas, umha breve estáncia mal acompassada (má relaçom entre as horas de viagens para o tempo de estáncia) mas que havia que fazer. Nom importo das horas do asento. É o olhar pola fiestra um jeito de me relacionar cum mundo que berra a cada passo (que sinto sempre como já dado) que nom estás cá.
Olhar é nom pensar. O contorno é no fundo apenas cenário da tua ausência, nova e remota, que ainda me abraia, que nunca estiveches.
Os carros de choque em Marim tenhem estrelas de cinema debuxadas na carpa e será entom que há que fazer algo, que é pola tua causa que fujo dalgo, que com dessesperaçom me apego às amizades velhas e aos cafés e às cervejas até horas altas,
que mergulho no verao ¿que é também esta minha revista na sala da tua agarda-.
E ao melhor nom tem a ver contigo. Porque ninguém me pode negar as ganas de apanhar um carro de volta, logo de oito anos sem tocar um volante, e enfiar pola estrada até centroeuropa. Sem horários, sem ninguém, mesmo depois de já te ter visto. Zen e carro.
posted by Sao Tomé 19:43

As mulheres primeiro



Entregárom-me, logo de vários meses de agarda, os quinze crachás coa cara de Hobbes que encarregara. Começo o reparto entre os amigos e decato-me de que nom há jeito, de que as contas nom quadram, de que quero fazer-lhe este pequeno agasalho a gente de mais. Vejo-me obrigado a discriminar. Um só crachá para cada parelha. Deixamos fóra à gente que sei que nom o vai ponher. Esqueço-me dalgúns. E nem sequer desse jeito. Impom-se umha segunda ediçom, quiçais vinte ou trinta (a ver se consigo um melhor preço) para ter reserva de cara a futuras amiçades. No complicado processo de selecçom, decato-me de que ponho primeiras as amigas para o agasalho. Pergunto-me por qué.
Quiçais o agradecem mais, ou mais graficamente, e eu goste desses seus sorrisos.
Quiçais estám mais de actualidade na minha vida.
Quiçais me ponhem mais a gosto comigo mesmo.
Quê sei eu. O facto é esse. E já.

posted by Sao Tomé 19:25

Segunda-feira, Julho 5

Diglóssia cronológica

Louriano foi educado em espanhol. Os seus pais mudáram-se aos prédios novos que figéram mesmo à beira do mar (nos dias de temporal as ondas chegavam aos portais). E, como el mesmo di, 'ali ter um filho espanholfalante era coma ter o televisor a cor'.
Entom Louriano, a temperá idade, decatou-se de que nom todos falavam igual e, logo de observaçom e de muito pensamento, chegou à sua própria interpretaçom do fenómeno diglóssico da comunidade:
A gente nasce falando espanhol, e fala-o toda a sua infáncia. De cara à adolescência, vai mesturando mais este idioma co galego. Na idade adulta o fenómeno agudiça-se, embora haja variações na língua empregada, até que ao chegar à velhez já só se fala galego com todo o mundo.

De jeito que Louriano deixou-se ir pacentemente, convencido de que chegada certa idade havia ir mudando naturalmente de língua.
Até que, evidentemente, a idade chegou, e falhou o sistema.
E tivo que ser el mismo, é claro, o que se tivo que aplicar e mudar de língua, passando a engrosar as filas dos neos do país.
Vaia isto coma sentido homenagem.

posted by Sao Tomé 20:36

Sexta-feira, Julho 2

Julho

O mês começa como era agardado. As noites alongam-se, a terraça do Embora chama e manda o sono para sabe Deus onde.
É julho em Compostela tempo de se esgotar. De festas de despedida (de estudantes, de prédios, de grupos). De visitas fugazes longamente agardadas. De milheiros de concertos, de espectáculos e de cousas pequenas que se descobrem na rua ao virar qualquer esquina.
É tempo de, por exemplo, se sentar nas escaleiras da Quintana com calma, a saber perfeitamente que alguém há aparecer. De se atopar casualmente pola rua com toda a gente, e deixar que as cousas fluam e tardem em rematar.
É tempo de reencontrar as praças na noite, as terraças, o motxo e o gelo no licor. E, como nom, também na noite as rapazas, também na noite as sandálias e a roupa ligeira e a dança e o calor. Dá-se bem o mês para o jogo, embora os festivais, as praias e as férias diminuam a concorrência nocturna e aquí apenas fiquemos as pantasmas (como dizia Benedetti).
É o período rico em variedade, em anédotas, em fazanhas de resistência, em sortes várias. Anda a gente mais ligeira, efeito quiçais de ser o verao umha paréntesse entre cursos e obrigas, um tempo no que Compostela é menos ela mesma, coma tendo perdido algum peso dos séculos e da pedra. E é óptimo.

Mas sei que este ano nom hei aprezar bem isto tudo de nom te achegares para partilharmos essas descobertas, esses lugares, essas noites, menina.
Beijos na noite, na Lua.

posted by Sao Tomé 19:26

Quinta-feira, Julho 1

Heidi e a Lua

Nom é a televisiva, é claro. Heidi (em realidade chama-se Ana, pero há anos que o esse seu nome perdeu vigência entre nós) é umha dessas amigas exiliadas que aparece de quando em quando numha visita surpresa, para tirar-lhe o ôxido às lembranças e traer novos sorrisos.
Coma ontem, que se deixou caer em Compostela. Ela foi a responsável de me ter deitado a isso das três da manhá, a golpe de quarta feira. Entre outras cousas, nesse tempo, entre cervejas, e licor café e pementos de Padrom, falamos da lua, que ilumina já o meu corredor e quase fai chegar a mancha de luz do chao até o mesmo salom.

Di Heidi que nom acredita na influência da Lua sobre as pessoas, embora sim veja os efeitos no ánimo da névoa ou da chuvia. Explico-lhe os meus princípios de Meteoropatia, e enquanto fago a ceia e ela olha essa Quase-Cheia desde a fiestra, inícia-me numha história que semelha um conto.



- Sabes que eu nom podo durmir se nom vejo a Lua?
Deixo os pementos e volto-me cara a ela, que continua a olhar pola fiestra. Um começo assim promete (embora afinal se veja que nom é tram grave a adicçom).
- Quando há Lua, claro -continua-. Em Madrid as primeiras semanas passei-no fatal, porque cos edifícios tam altos nom se vê...
E conta-me entom como o seu pai (afeiçoado à astronomia, mercou um telescópio co primeiro salário que puido aforrar) levava-os a ela e ao seu irmao a ver as estrelas "e sobretudo a Lua" antes de os mandar para a cama. E como lhe ficou o costume no corpo. E como passou três semanas por Madrid a buscar o satélite polas ruas, em estando de festa, em cada momento da noite.
- Nom era que nom durmisse, pero nom ia bem para a cama... Até me agasalhárom umha foto da Lua os amigos, a ver se desse jeito.
- E afinal, como arranjá-ches?
- Afinal num descampado que havia perto da casa, onde estavam os morcegos, podia-se ver um anaquinho. E ia ali olhar a lua.

Ontem olhou-na desde a minha cozinha, desde a terraça do Embora, desde as ruas desta Compostela que encontra mudada.

É-che assim a Heidi, pequena e risonha (algumha vez lhe tenho chamado pessego). Nom é de estranhar que, dum jeito ou doutro, a maior parte de nós ficássemos nalgum intre um bocado namorados dela.

(Hoje, enquanto me duchava, cantava -cumha energia que só podo chegar a suspeitar de onde a tirei- 'Dancing in the Moonlight'. Depois acheguei-me ao salom para acordar a menina que, por desgraça, já marcha.)

posted by Sao Tomé 18:40

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Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá... Álvaro Cunqueiro "Si o vello Sinbad volvese ás illas"

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