Trapobana

Segunda-feira, Maio 31

Desde o borde



Desde este observatório zen no que me sinto às vezes instalado (acho que na realidade dum jeito bem mais precário do que eu mesmo penso), olho passar coma num trem, a toda velocidade, os estragos deste fim de maio. Para bem ou para mal, a vida acelera-se (parabéns aos premiados, apertas para os demais).
Nom o vou negar: ando um bocado desapontado com algumhas mudanças, sobretudo com as que me tocam mais perto.
Ando com medo ante outras novidades, inestabilidades que já duram de mais, susceptibilidades que semelham facilmente feríveis.
Com o vento do Oeste que nos trae nuvens e com a Lua que chega.
E sem embargo, sentado no meio, deixo-me levar aos poucos e procuro marcar a minha própria velocidade, fico contente polos agasalhos o mês, nom deixo de agardar umha certa ralentizaçom e umha raçom de boas novas, ao borde de junho.

posted by Sao Tomé 21:56

(Acotaçom XXXII: João canta o tempo)

< A luz é ténue. O porto baixa, e baixa e baixa.
O tempo passa macio porque assim o canta João Gilberto.
A conversa continua. E

embora sejam os teus olhos quem te anúnciam, quem transportam diante tua a maravilha
do que mais gosto e desses intres em que os pechas
e formas o sorriso
de me bicar. >

posted by Sao Tomé 20:06

(Acotaçom XXXI: As prumas e a vida)

< Caminho a modo. Encontro no passeio prumas e prumas de pomba.
Penso imediatamente que algumha foi atropelada, e a continuaçom passa-me pola cabeça
a estranha ideia de que é a vida das pombas a que mantem as prumas no seu lugar,
de que ao morrerem perdem esse magnetismo
e as prumas escapam (mais do que caberia supor)
deixam o corpo morto
coma querendo voar
mais umha vez.>

posted by Sao Tomé 20:01

Sexta-feira, Maio 28

Encontros

A sesta é imensa e demorada, embora o final fica um bocado abrupto (sentidinho e obrigas académicas).
De qualquer jeito, sinto-me pessoa de novo (nom direi umha boa pessoa, mas sim bastante contente), e vou de visita acompanhado por esta Íria de nova raça, que nom permite a indiferência no olhar.

Polo meio, tenho que parar três vezes para falar com outras tantas pessoas e grupos. Em saindo de Cas Tino, quatro ou cinco paradas mais. As propostas para prolongar a noite sumam-se umhas às outras. A gente está sociável e fai-se difícil nom parar no Mosquito canda a Fer, nom seguir um bocado mais a conversa com Maca, evitar a tentaçom de chamar ao Luigi e companhia e ir tomar ainda umha caneca.

Resisto-o. Adio encontros para manhá, para sábado, para domingo. Situo o durmir coma prioridade por primeira vez na semana.
Chego à casa às doze e consigo-o.
Antes de deitar-me penso que verdadeiramente está cá a lua de maio. Que a gente está carinhosa. Que eu também.
Que as ruas onde nos encontramos (em falando de propriedade) som nossas, que ainda tenho gana de dançar.
posted by Sao Tomé 19:30

Quinta-feira, Maio 27

Espertares

Esta semana semelha estar destinada a traer-me agradáveis espertares surpresa.

Ontem ao sair da ducha encontrava a Rosa polo corredor da casa, depois de ter chegado precipitadamente canda a Jandro a noite anterior. Cheio de sono, almorço de pé enquanto lhe vou debulhando as últimas ondas que trouxo a vida. Sentamos na cama e aparece Jandro, cheio de sono e sem barbear. Enquanto Rosa fala por telefone, el ocupa-lhe o lugar e seguimos a falar de vagarinho, até que marcho correndo porque chego tarde ao trabalho. A sensaçom familiar a tais horas da manhá (e mais com tal família) é altamente reconfortante, e fica a mágoa de nom termos mais tempo, de serem sempre escassos os anacos que compartimos.

Hoje almorço bem acompanhado também. Ainda que semelhava impossível tenho ainda mais sono acumulado. De novo a conversa é vagarosa, mas desta volta o café e as magdalenas venhem acompanhados de bons beijos. Nom deixa de ser um bocado de surpresa encontrar-se ai (encontrar-te ai) e despedirmo-nos no meio do Obradoiro.

(Poida que manhá apareçam polo corredor Jordi e mais a sua irmá, que se achegam à cidade para ver Extremoduro.
E a saber por quê outras veredas continuarám os almorços.)
posted by Sao Tomé 21:17

Quarta-feira, Maio 26

(Acotaçom XXX: Dono)

< Saio a correr do trabalho. Apanho o comboio. Cheio de sono. Levo dous dias fechado a estudar, durmindo mal. Repaso. Chego a outra cidade. Como a correr. Outro autocarro. Fago um exame. Saio e agardo outro autocarro. Ainda falta mais um para voltar a casa e atopar a Jandro e a Rosa que venhem de visita. E tomar-lhe umha e nom ficar durmido nos bares.
No meio, desde os intres em que agardo polo primeiro comboio, começo a ter essa sensaçom.
Fago tudo isto porque me peta. Fago-o seu sozinho e só ante mim tenho que responder. Ninguém me manda. Ninguém me obriga.
O orgulho que me produce ser quem de estar a estudar por hobby umha segunda carreira (há dous anos nem podia pensar nesta possibilidade), a sensaçom de ser dono da minha própria vida nom deixam de me surpreender de quando em vez.
Ser consciente da minha capacidade de iniciativa nom é pouca cousa, sobretudo para alguém que, coma mim, se sinte muitas vezes coma um elo no que confluem circunstáncias e que carece de controlo sobre a sua própria vida.
Para além, acho que essas horas de silêncio e de soidade que me dám estas pequenas viagens servem-me em boa medida para apousentar a vida.
Quiçais tenha deixado também, estes últimos meses, passar as possibilidades de me sentir assim. Quiçais o tenha feito pagar indirectamente a quem nom devia.

(Penso isto mestres agardo por um dos autocarros. Fumo um cigarro e olho
um gato imenso que me olha,
as casas feias de formigom,
as nuvens que ameaçam no céu,
a estrada que corre cara algures) >
posted by Sao Tomé 22:39

Retorno à gravidade

Íria volta das férias mais esplendorosa do que nunca. A pesar de que o tempo nom acompanhe, a primavera aninha (coma tantas vezes) dentro dela. Tenho que vir eu, (na minha última tendência a andar cumha poça já enganchada na perna, pronta para meter constantemente o pé dentro) que vir machacar em boa medida a sua radiante situaçom.
Embora seja maio, embora saiba eu já perfeitamente que é o intre para agromarem os malentendidos, embora seja a lua, e haja sono e tudo.
Mais umha vez, a gravidade em Trapobana amosa-se maior do que é fóra da Iha. E a pedra que me cai na cabeça, e as pedras que atirei sem apenas sabê-lo, fam hoje por mo lembrar.
(Como também me lembra esta minha menina que o verao, já o dizia Benedetti,
"De todos modos cambia a las muchachas,
las ilumina, las ondula, y luego
las respira y suspira como acordes,
las envuelve en amor, las hace carne,
les pinta brazos con venitas tenues
en colores y luz complementarios,
les abre escotes para que alguien vierta
cualquier mirada, ese poderhabiente." )

posted by Sao Tomé 22:22

Terça-feira, Maio 25

(Acotaçom XXIX: Cansaço e post em ondas)

< (Fluxo:) Às vezes penso, menina, que o que mais nos une (a ti e a mim, a vós, a nós) é esse grande desporto de analisar, maldizer e julgar à eterna terceira parte (que, desta volta quadrou que som eu).
(Refluxo:)Nom tem mal.
(Fluxo:) O triángulo fai-se mais umha vez muito isósceles (já leva um tempinho). E desde este vértice afastado, já o vejo normal, coma parte dessas nossas marés particulares, que nos afastam e nos achegam alternativamente e de jeito assimétrico desde há anos (nunca nos quadrou, acho, arrejuntarmo-nos os três, andarmos mais separados).
(Refluxo:) Nom tem mal.
(Fluxo:) Unicamente me pergunto como é que ainda há quem se estranhe de que nom me encontre incómodo a dançar num quadrilátero, quando levo tanto tempo embarcado nesta estranha relaçom triangular.
(Refluxo:) Nom tem mal. Aledo-me de ver que se vos acurtam as distáncias. Estou afeito, e em geral nom lamento o jeito que temos de nos bambear.
(Fluxo: )Mas hoje, a verdade, acontece unicamente que estou canso, que som consciente, que (sobretudo) tenho sono e que o ar clama trevom.
(Refluxo final. Maré baixa.) Beijos para as duas, de qualquer jeito, com o amor de sempre, coa distáncia que nos toca. >

(Mantra e envoi: A vida vem em ondas coma o mar)
posted by Sao Tomé 19:44

Segunda-feira, Maio 24

Isn't it wood?

É quiçais a minha maior cançom fetiche, e acho que responsável em boa medida de como vou sendo.
Desde os treze anos comecei a sonhar com encontros coma os que narrava o Lennon.
(Digamos a verdade: McCartney nom tem nada a ver com este tema. E como curiosidade engadamos: É esta a primeira gravaçom com George Harrison tocando o sitar.)
O caso é que, desde aquela, ainda tivem e (por fortuna) tenho encontros semelhantes, fabulossas noites de conversa com rapazas que tenho (ou deveria dizer que me tenhem).
E poida que amaneça sozinho, que fique a durmir no banho, que volte à casa.
Mas às vezes nom.
E, ao fim sempre, acendo um lume com esses intres (nom é isso bom?), essa Madeira Noruega coa que me aqueço.

posted by Sao Tomé 22:33

Meditação

Passo dous dias quase inteiramente fechado na casa a estudar.
Coma é habitual nestes casos, e mais ante um texto árido, a cabeça age pola sua conta e aproveita.
Deste jeito enquanto olho as hortas e o avance das tardes, entre linha e linha, vai-se formando um estranho tapiz de temas no que alternam os fios dos trevões,
os de comer a cabeça cos problemas doutros,
os dalgumha gente que conheci ultimamente, os daqueles que voltárom, os dalgumha viagem,
os dos amigos que estám ai sempre sem julgar, os daqueles se vem pouco,
os do meu estranho bom estado,
os do licor café da sexta às catro da tarde, cheios de sono e a celebrar,
os das mais estranhas hipóteses sobre dedicar-me a outra profissom...
(reconheço que a miudo as febras vinham tingidas com a tua cor)

Em resumo, o cérebro aproveita estas estranhas para el horas de calma para exercer essa caste de meditaçom inconexa que transcorre alterna com as páginas. Essa sedimentaçom que há já tempo nom tinha.
Sei desde há tempo que é o meu jeito de vida. Que para ir bem, preciso que as cousas pousem, ou acontezam a umha velocidade moderada. Meditação.

(No meio desse estranho tecido, vejo a imagem dum globo a arder, e imediatamente penso nalgumha grande ida de perolo já mentada acô. Mais um factor desencadenante a ter em conta.)

Cara ao final de cada dia de enclaustramento chega, como é inevitável, a sensaçom de fastio e a necessidade de ver alguém e sair da casa.
Apanho como podo (já som receitas velhas), releio algumha cousa boa, escuito algo, lembro dalgum intre.

(Ou recebo umha mensagem, e temos um bocado de conversa que me fai sentir um bocado mais novo, sem todas estas horas enriba. E mando-che um anaco de cançom.)

E vou durmir.

posted by Sao Tomé 20:19

Sábado, Maio 22

Solidariedades e oda

Acusam-me de me aledar mais polas cousas boas que lhes passam aos demais que polas próprias. Duvido que seja certo.
Mas, do mesmo jeito que a saudade (que cantava o Jobim), a ledízia, se existe, é minha. Será-me mais sinjelo manifestá-la nas felicidades alheias. Mas também sei que tenho gente que manifesta bem por mim as minhas próprias ledízias, e ainda as dores e as mágoas.
Ultimamente temos bastantes destas mostras de solidariedade, e é fermoso ver nos rostos dos amigos o teu próprio sorriso, e sentir no teu rosto a sua ledízia calada.
Hoje estou contente de qualquer maneira. Por mim e por (quase) todos os meus companheiros (como berrávamos ao jogar às agochadas).
Gardo estes intres no faro com o que dá luzes na noite a ilha Trapobana, que sirvam para dias mais escuros.
Por se fosse pouco, e como se pode ver ai embaixo, atopei de casualidade a tumba do bom Cosimo Piovasco del Rondó. Enriba dumha árbore, é claro. Abençoado seja o seu nome.

Hoy dejadme, a mi solo, ser feliz (contigo, con tu boca).
Ser feliz.

posted by Sao Tomé 01:46

Sexta-feira, Maio 21

Mudança de fotos



Coma se o mundo levasse um mes tentando confrontar-me com o eu que era há um par de anos.
Coma se nom fossem abondo os reencontros com Julianne, com Frauke, as memórias com Maria, as lembranças inexoráveis de cada abril.
Coma se nom tivesse eu já claro o veredicto.
Aparece no meio da noite, no meio da gente, tirada do fundo mais fundo dum velho armário (lá onde gardo as fotos que gosto de ver amarelear), a fermosa Lorie.
Lorie agora feita carne, exiliada do mundo de lembranças onde a tinha.
Lorie mais magra, com o cabelo longo, mais velha coma todos.
Foi lá aquela rapariga de vinte e um anos que era. Fórom lá as minhas tentativas. As ceias pausadas. Os pementos de padrom. O tempo das cereijas.
Os olhos som os mesmos, e também o sorriso. Enfronto-me com eles sem que mude o veredicto. Nosotros los de entonces ya no somos los mismos. E ainda é bom.
Bem vinda, menina, embora seja por pouco tempo. Bem vindos os teus olhos e o teu sorriso, bem vindas as tuas novas. É mágoa (um bocado) despedir o ti que gardava na memória, mudar as fotos do armário, enterrar aquela rapariga que olhei muito tempo coma the most wonderful puellam de todo el mundo (como dizia Cosimo nos seus trassacordos).
Nom a esquecerei.

posted by Sao Tomé 19:00

(Acotaçom XXVIII: Notas do passado)

< Continuando na tendência que tem o destino a me enfrontar co meu próprio passado, atopo, ao abrir "O baron rampante" na busca dos trassacordos do Cosimo, umha nota.
Ainda que anónima, reconheço bem a autoria dos números. Numha folha de calendário do 26 de janeiro de 1998, umha cita impresa: "Lei de Tussman: Nom há nada mais inevitável que um erro inoportuno".
A anotaçom, unicamente "177-186". O capítulo (Colecçom Xabarín , de Xerais) no que o Barom Rampante reencontra a Viola.
Tinha (suponho que conservará ainda) essa minha Viola grandes dotes para este tipo de detalhes e de mensagens.
Mas tanto tem. Para além do fermoso do facto, é esse um passado que já nom remexe nada, há tempo que lhe tirei esse poder, já não enche. >

posted by Sao Tomé 18:28

Chuvas de verao

Acontece de novo. Logo do demorado anúncio das nuvens invadindo aos poucos anacos do céu, umha chuva grossa e feroz volta limpar o ar. De novo trae o arrecendo da terra molhada à minha fiestra enquanto frego, de novo trae-me a gana de sair à rua a me limpar também.
Contara-me Tino algumha vez que esse arrecendo é o que produzem certos microorganismos que vivem aletargados no chao até que se molham, intre em que espertam e, por um breve anaco, aproveitam para se multiplicar (para nascer dessesperadamente, como di o Benedetti que fam os fungos no xardín botánico). Resulta entom que ulimos, en intres coma estes, o arrecendo dum imenso coito, o qual, ao meu ver, nom lhe tira beleça à questom. (É quiçais por isso mesmo que gostemos desta terra molhada, mesmo sem saber).
Para já. Está tudo mais claro. Já o cantava o Caetano: Som cousas do momento, som Chuvas de Verao (os sentimentos passam como o vento).

posted by Sao Tomé 18:27

(Acotaçom XXVII: Na busca da água)



< É certo que também é porque a roupa enjoita antes. É certo também que é porque tenho que começar a estudar e ando com a fevre de limpeça prévia. Mas nom deixa de ser certo também:
Desde que veu este verao do que venho enumerando os síntomas, e para além de andar mais espido pola casa, estou a lavar seguido a roupa toda que se acumulara. Estou a tender as prendas húmidas na cozinha e as sentir como arrefecem o ambiente e como soltam o arrecendo fresco amaziador. Ando a amassar a mao as camisas que há que lavar na água fria. A assomar-me à fiestra enquanto chove agardando ser abençoado por algumha pinga. A nom perder ocasom para lavar a louça, e molhar-me. O corpo pede água, a pele pede rio, ando com sede, diria-se (e os meu olhos pedem teu olhar). >

posted by Sao Tomé 18:11

Quarta-feira, Maio 19

Campiona!

E, embora cum bocado de atrasso, aproveito para parabenizar a Anjos por esse Prémio da Crítica. Ainda bom que se vam reconhecendo algumhas cousas boas!
Beijos à ganhadora.

posted by Sao Tomé 21:20

Deuses da chuva

Começam os trevões. Segundo a mae de Maria e a tia de Belém venhem com atrasso este ano porque a lua de maio ainda começa agora (é visto que ainda tenho muito para aprender sobre isto).
Aconteze entom que estou na casa, a fregar com água fria (mais um síntoma de primavera voraz) a louça de toda umha semana com a fiestra aberta e o arrecendo do lavalouças por toda a parte.
E, logo dalguns lóstregos, começa a chover por fim.
A modinho, começa a se respirar melhor, e chega até a minha fiestra o arrecendo (por fim) da terra molhada.
Por fim. É a expressom única que se me ocorre. Por fim esse alívio, esse enchoupar o pó e fazê-lo chao, esse molhar o telhado, esse refrigerar esta vida acelerada.
Deixo a fiestra aberta. Que se molhe um bocado o chao, a vassoura, o caldeiro do lixo. Canto. Olho.
Sinto algum tipo de agradecimento (por fim) e vem-me à cabeça do fondo da mente, a jeito de plegária, a velha cançom.

Dios de la lluvia abrázame
y bajo tus nubes volveré a considerar
las múltiples formas de besar...

(Afinal, pouco depois de fotografar o solpor mais vermelho que lembro nessa casa, achega-se Sérgio na já habitual visita. Estamos no salom, com a fiestra aberta, e agradeço por primeira vez no ano o sopro de ar que vem da rua a me aliviar o calor. Olho o teito e nom tenho dúvida. É verao, ou maio, ou o que for.)
posted by Sao Tomé 20:42

Terça-feira, Maio 18

Umha outra vida é possível

Estou canso. Noites curtas (ou muito longas, segundo se mire) e dias intensos fam que me doam pequenas partes de tudo. Que o pensamento vaia a modo.
E, sem embargo, por razões várias, encontro-me ao borde teórico dumha vida bem distinta à dos últimos meses.
Rematadas certas responsabilidades, pendentes ainda algumhas outras, o cérebro fica um bocado descontraido. Embora haja concertos, e festas, e ceias que fazer e porto por beber, o ritmo fica inexoravelmente mais lento e, ainda sem o assmilar de tudo, deixo-me arrolar na sensaçom de seguridade que outorga este quase verao, sem perder de vista maio pola beira do olho, sem perder de vista os elementos inestáveis da minha vida, sem agardar realmente tanta mudança.
(E, é claro, sem te perder de vista muito, menina).
posted by Sao Tomé 20:42

Domingo, Maio 16

(Acotaçom XXVII: A promessa de maio)

< Som seis da manhá. Despedimo-nos na minha porta.
Seguindo a sugerência (a sua) e o desejo (o meu), deito-me de novo na cama-sofá do salom, tapo-me com o nórdico (agora já eu sozinho) e deixo-me anainar por Cesária, calmo, canso e contente.

(E é que, de quando em vez, maio cumpre as suas promessas boas.
E, de tudo, apenas isto é o que fica cá.
Os beijos gardaremo-los nós.) >

posted by Sao Tomé 01:21

Invasom

E velaí que escrevo agora, com Tryo, com Tribalistas, com Sílvio a grande volume a proclamar-lhe à rua que é agora a primavera de verdade, que nom há escapatória.
Levo as sandálias postas, e o pelo molhado e solto, umha camissola laranja. Por se nom fossem estas mostras de abondo, direi que as terraças estám cheias. Que as meninas estám lindas. Que há três moscas a voar polo salom. Que a minha querida Titi, coma no seu intre Cleo desabrocha um a um e com boa força o seu bom molho de botões. Que, para além das suas, mi casa ha sido tomada por las flores (passa pouco, pero passa, compadre).

posted by Sao Tomé 01:16

Sexta-feira, Maio 14

Um porto de garda

Comunicam-me a presença de Trapobana no Anxos de Garda desta semana. Mais umha vez penso que tenho na Ilha visitantes verdairamente ilustres, que acho nom merecer.
A presença de Anjos nestas costas já me é conhecida de há bastante tempo, realmente. Mas nom deixo de me surpreender e de me encher de orgulho cada vez que di que gosta dalgum post, que me lembra que vém de visita.
Eu há muito também que lhe sigo a escrita, e nom negarei a sua responsabilidade (onda a doutra gente) à hora de me animar a povoar este recanto. Anjos de Garda tem-se-me convertido num dos poucos portos seguros na navigaçom. Num desses escasos lugares nos que tenhem o protagonismo as cousas pequenas de que tanto gosto.
Obrigado pois, mais umha vez.

(Para os que venham novos hoje através dela, fica ai embaixo mais umha pequena justificaçom sobre Trapobana).

posted by Sao Tomé 22:29

Autojustificaçom VII: Geografias de Trapobana



Seja que nom há haja, seja que é navegante, a Ilha Trapobana tem a propriedade de ter sido vista em zonas muito diferentes do Oceano Índico. Embora a maior parte das informações coincidem em assinalar que o nome era aplicado antigamente à Ilha de Ceilám, actual Sri Lanka, nom deixa de haver datos que a situam em Sumatra ou mesmo justo ao Norte de Madagascar. A presença da Ilha vem já de velho, dos tempos de Plínio e de Ptolomeo, que aplicavam o nome a umha grande Ilha situada a Oriente e da que hoje nada de sabe.
Algumhas das fontes em que se basseam os dados de Trapobana som para estar orgulhoso de ter esta moradia. "Os Lusíadas", "O Quixote", "A mil e umha noites" ou vários textos do Senhor Dom Álvaro som algumhas das excelsas obras que, dum jeito ou doutro, se ocupam desta Ilha.

E é que, para além de visitantes ilustras, atopo aos poucos que a Ilha tem umha história que mesmo à vezes fai-se-me grande de mais para mim.
posted by Sao Tomé 21:54

(Acotaçom XXVI: Acçom de graças)

< Som as oito e meia da tarde. Ainda vai sol. Baixando por Casas Reais, à altura da casa modernista, escuito-lhe dizer a Íria palavras polas que levo pregando desde há anos. Ajeonlho-me no chao no meio da rua e olhando ao céu berro "aleluia!, por fim!" e cousas no estilo:
A menina semelha que se reconcília por fim com essa parte de si mesma, e custa-me reter as bágoas.
(Som-che as cousas de querer a gente mais do que ela mesma se quer, o que semelha ser um dos meus grandes problemas).
Em fim: A quem for responsável, fago-lhe acçom de graças (e como dim por ai: graças, as que ela tem). >


posted by Sao Tomé 18:08

Quinta-feira, Maio 13

Voando vou

A vida continua co seu ritmo acelerado. Por fortuna conto com boas companhas às que saudar nas curvas ou nos pequenos semáforos que encontro entre carreira e carreira.
Nalgum desses semáforos, atopo-me brevemente co sorriso beatífico de Carmela (grandes som os efectos do porto) e combinamos rapidamente umha viagem a Praga para este verao (grandes som em verdade).
Noutro pequeno intre com Sérgio, damos-lhes voltas aos nossos respectivos avances e retrocessos coas mulheres, por variar (é sabido que, também neste eido, a vida vai em ondas coma o mar).
No concerto Kiko emociona-me (si tu lo quieres, ay por díos, dime que si) e deixa-me coa sensaçom de que foi breve de mais. Polo meio Tino le-me o pensamento e canta em voz alta a versom punçante que tinha na cabeça (si tengo frío, busco candela). O encontro com Isa e a velha Íria (a do sorriso nos olhos), a companha e o demorado caminho para a cama, deixam-me ainda mais paz.
E volto-me deitar tarde, e canso, e sozinho e sem porto e com pouca queixa, agradecendo o bom sentido que nom me permitiu seguir a noite, e pregando-lhe à minha saúde um bocadinho mais de ressistência, que já está, que já passa, que já chegamos aginha
a algumha caste de meta.

posted by Sao Tomé 19:09

Quarta-feira, Maio 12

Dous temas

Deixárom-me ontem na cabeça esta cançom e a promessa de tentar consegui-la na versom de João Gilberto, que agardo impaciente.
Alterna polos pregues cerebrais com estoutra, fruito sem dúvida da visita que nos fai esta noite o Kiko Veneno.

...que sin tu palabra
soy un pescaito
que no tiene río
un niño en la playa
que no tiene arena ni cubito

borra el humo de tu frente
para que salga lo bonito
ese angel chiquitito
que se hace diferente

(Cousas lindas em fim.)
posted by Sao Tomé 18:33

O funil de maio

(No meio das presas, tenho a fortuna de goçar por uns intres da ledízia de Íria, tam estranha nos últimos tempos. Aproveito para a apertar furtivamente. É um desses poucos intres em que se lhe detecta que, mesmo desde dentro do seu sorriso, tem gana de mimos, o que fai o encontro perfeito, em resumo.)



Para além, lembro umha tarde mais, enquanto fago a ceia que compartirei de novo, o importante que é ter cervejas frescas na neveira durante a primavera. Lembro mais umha vez, nas sensações que achega esta estaçom, mais exactamente as da tarde, de anacos de cousas pequenas. Prendo o primeiro incienso no que vai de ano.
E é que este atardecer, coma o de onte já, clama-o: É maio.

Coma parte de notícias: Os sempre acolhedores Tino e Bibi, o rir e fazer rir um bocado com Jandro e Rosa por riba das distáncias e dos problemas. A ceia de ontem co Sérgio a passar o tempo e as risas e a parola até que se nos fai tarde. O retorno com Carol desde o Campus Sul. As habituais conversas com Ana. Os jantares pouco habituais. Meia garrafa de porto e Carmela que marcha tarde de mais pero antes do que desejariamos som algumhas cousas que me levam de volta à minha própria vida (é dizer, que me tiram de estar centrado na tua).

E embora as cousas a fazer nom sejam poucas. Embora tenho depois sono, e dores articulares, e presas e derrotas, acho que nestes dias, coma o Fausto, espreito por um funil a promessa de maio.
Que se cumpra.

posted by Sao Tomé 17:51

Terça-feira, Maio 11

Couselos e Preguntoiros

Deste que falei sobre os Embigos de Venus que (nom) medram nos (meus) telhados, recevim já três informações assinalando que estas prantas respondem em galego (imagino que quando lhes peta responder, que dizia algumha vez o Dario) à denominaçom de couselos. Ainda que menos poético, gosto imenso também deste nome, e como lhe digem a Ana (a primeira das informantes), é umha bonita palavra para lhe chamar a alguém.

Aproveito a ocasom para introduzir um acompanhante que me jurdiu na Ilha, chegado a bordo dumha bala de canom, e que se ofereceu a colaborar na difícil classficaçom das plantas que medram cá e que, (coma Trapobana mesma) nom é que nom as haja...
Deste jeito se me apresentou o bom Botánico:

"Estimado senhor Santome:
Recém caido do céu na ilha que voçê tem nomeado Trapobana, e seguindo o espírito de grandes botânicos que no passado acompanharom aos marinheiros na re-descoberta de novas terras, haverá de me permitir que lhe sejam enviadas as minhas contribuções à descrição da vegetação que cobre a ilha com essa floresta verde e cheia de vida.
Com os melhores cumprimentos,
Botânico Preguntoiro,
Burgau, Algarve."

E deste jeito explica-me a questom dos couselos:
"Caro senhor Santomé:
Escrevo-lhe estas linhas para achegar-lhe um comentário sobre o Umbilicus rupestris que você tem colado no taboleiro de Trapobana. Hei-lhe dizer, com risco de rachar esse "savoir faire" poético que enchoupa cada umha das jornadas em trapobana, que essa pequena planta que tingue de verdor muros e telhados recebe nas terras galegas o nome de couselo, sendo o termo "ombligo de venus" próprio das terras castelhanas, mais empapadas pola ilustração e o legendarismo romano. Agardando a sua compreensão (sinto rachar as conexões com a literatura iberoamericana), despido-me até nova data.
Com os melhores cumprimentos,
Preguntoiro Floral,
Botânico "

Agardo novas apreciações sobre a flora da Ilha. (Para quem esteja interessado, este mesmo botánico já viu recolhida algumha sua aventura com o título de "Impresiones de la Isla". Disponhíveis ainda hoje, domingo a domingo, em "Diário de Ponte Vedra" da mao de Carlos Portela e de Fernando Iglesias. )
posted by Sao Tomé 18:54

Rito anual

Tenho a ideia de que desde que cheguei a Compostela o feche da Feira do Livro converteu-se numha cita inexcussável e tácita de todos os amigos e conhecidos. Todos os anos coincidimos lá na alameda, entre as casetas, a maior parte das veces a chover (nem sempre houvo carpa) agardando polo sorteo final do lote de livros, olhando polas obras últimas que nos resistimos a mercar ao longo da semana.
Aos poucos decato-me de como se poderia fazer umha evoluçom das nossas vidas olhando só esses intres, como a data é já um bocado para mim un intre de olhar atrás (no meio dos maios, sempre revoltos) e fazer balanço, ao jeito dos aniversários vários ou de fim de ano.
Sempre nos atopamos lá, ao cabo. Querendo-o ou sem querer, coincidimos as parelhas, os que já estám sozinhos, os que venhem de rachar, os que se falam e mesmo os que se odeiam. Escuitando os números e agardando polo lote de livros.
Um ano tocou-lhe a alguém, e muito rimos ao descubrir no pacote umha biografia de Manuel Fraga.
Ontem de novo, recém chegado, combino com alguém lá, sabendo que atoparemos a gente toda com a que nom fai falha combinar.
Desta volta também há tensões no ambiente, e mesmo marchámos antes de que remate a cerimónia anual.

No caminho atopamos a Bibi, que vai na busca da sorte e do anceiado lote animada por Tino: ("Vai mulher, nom ves que se nom vas é quando toca?")
Conto-lhe a história do livro de Fraga, e ainda pola noite chama para contar que ganhou.
E que entre os livros, para além de histórias sobre Inês de Castro e Melusina dos Lusignan (a lenda as garde por sempre), estava um engendro titulado "Fraga em América II".
Mais umha história da Feira.
posted by Sao Tomé 03:38

Segunda-feira, Maio 10

Get Back

Volto
(dez graus no exterior)
para me encontrar com a mesma velha tristura. Mais calma agora.



Traio comigo agasalhos para as raparigas desta minha vida.
(Um principezinho com a raposa, que me faga lembrar o importante: o que se ganha com a cor do trigo.
Um monstro de mentira que lembra que sempre há umha menina no interior.
Heroes normalizadores que dançam com o cu ao ar. Cadelos de companhia.)
Traio comigo umha certa calma, a fim dum catarro, pequenas ilusões, ferramentas que agardo me defendam das primaveras mais terríveis.
Traio umha tarde de passeio com esses olhos verdíssimos de há anos, polos que continuo a agardar dalgum jeito e que tam bem prometem lavar as mágoas.
Traio histórias, gentes, algum cansaço, a sensaçom de nom ter sido de abondo, gana de marchar de novo.

Volto (onde algumha vez pertencim).
Dez graus no exterior.

posted by Sao Tomé 20:06

Quinta-feira, Maio 6

Que faz o sol

Eu nom sei que faz o sol. A verdade algo estranho deve estar a fazer. Mentres os telhados diante da minha fiestra já estám (como lhe corresponde a este maio) enteiramente floridos, cobertos dum manto cor de rosa que ano a ano se fai mais mesto, no meu nom medra nem o briom, e apenas uns poucos embigos de venus ressistem a pê



(nunca esquezo o nome desta pranta, e a culpa é -por suposto- de Benedetti:
'lo cierto es que el fulano mira su ombligo
por él desciende al mundo / sube al vuelo
pero sólo lo asume con alborozo cuando
le trae nostálgia onfálica de su linda mengana
cuyo pozo de sueño le acerca más delicias
que el ombligo de venus que medra en los tejados'.
'Onfálica').

Sei que noutros anos tenho tirado a cámara e fotografado o assombrosso verdor, os fentos que um dia descobro cá mesmo a carom da minha fiestra e da pantalha do computador.
Mas nom dá, desta volta. Nom sei o quê faz o sol.
Nem tenho claro se, do mesmo jeito que diz a cançom, mais val um bom dessengano que andar enganado sempre.
E valerá.

posted by Sao Tomé 18:08

Quarta-feira, Maio 5

Insánia
Nom tenho visita. Nom rematei todos os asuntos pendentes, mas atopo-me em stand-by. Começo a somatizar estes tempos. Prepara-se um catarro que nom sei se darei evitado. Olho Taxi Driver. Dalgumha maneira flue polos pregues do cérebro algumha esquezida modalidade de endorfina. E é neste cúmulo de circunstáncias desde o que olho a minha insánia. Decato-me de como tenho perdido o controlo dos meus próprios pensamentos. Asusto-me um bocado, mas afortunadamente levo umha vida a me preparar em certo jeito para intres coma este. Som consciente desde há muito tempo de que caminho por um fio e que algum dia veria isto tudo desde a outra beira. Agora.
Tempo de mais sem parar.
Tenho feito da minha vida umha loita polo controlo, polo conhecimento, por evitar situações que me tirem de mim.
Agora estou sentado e olho na pantalha umha temporada que se alongou. Busco as causas mas fundamentalmente sinto as articulações, o cansaço calmo, o baleiro de depois do trevom. Temo as novas mobilizações, as novas ondas.
Fica a constáncia, já temida, já previda, de que a fronteira é estreita. De que sim podo me perder. Semelha que sempre em primavera.
Era visto. Tinha eu pendente um abismo, e veu tocar este. Nem foi para tanto. Procuro estar de volta. Peço desculpas aos afectados. Prego paciência.
Temo também só seja esta umha paréntese de luzidez.
Marcho um bocado.

posted by Sao Tomé 18:08

Terça-feira, Maio 4

Sonhos

Está a me custar muito voltar à realidade. De jeito literal.
Ontem entrei na cama pola tarde e imediatamente soou o espertador e já fóra lá a meia hora prevista.
Hoje de novo fum umha pedra toda a noite.
Uns universitários com pinta de debuxos de manga jogavam a algum jeito de fubol americano-beisbol cumha folha seca a começos do século passado. Era outono, por suposto. De novo soou o acordador e tivem que fazer sérios esforços para fazer-lhe caso.
Semelha que o meu corpo (ajudado polo tempo), fijo-se listo desta volta (a pesar da lua, das ondas, das agardas, das rabunhaduras que me provoco ultimamente co meu contorno mais intimo) e dezidiu que eram horas de durmir.
Agradeço-lho imenso. Havia muito tempo que nom acadava uns níveis tais de inconsciência durante tanto tempo.
De qualquer jeito, os sonhos continuam a ser os mesmos. Não tem revolta:
Só quero que você se encontre

A esperanza é um dom que eu tenho em mim -embora vaia gasta nos últimos tempos-.
Você me ensinou milhões de coisas.
É por isso que se fai tam triste este processo de perda de fê.

posted by Sao Tomé 20:19

Segunda-feira, Maio 3

Que todo está igual

Marchou Frauke, já.
Correu bem a visita, o exame de consciência, o reencontro.
Os dias voltam de novo a ser dias, até certo ponto sem festa.
Fico de novo sozinho na casa. E tudo está igual.

Temo de qualquer jeito que o ritmo nom vai diminuir muito, de qualquer jeito. Maio começou já coas primeiras inquedanças.
No meio dos trevões, a tarde deu para me encontrar com Íria (verdadeiramente Sabia da Manta Elêctrica) de novo um bom par de horas depois de tanto tempo, e ficou momentáneamente tudo mais brando.
Agardo hoje por várias novas visitas, polo jantar que vai fazer Belém, polo estar na casa a arrumar os restos da semana toda.
Agardo inseguro umha calma que sei impossível neste mes.
Com certeza só resta o surfismo (zen) no meio do temporal (como bem di Maria, "o mau nom som as ondas, é a ressaca").
Estou canso.
posted by Sao Tomé 20:45

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Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá... Álvaro Cunqueiro "Si o vello Sinbad volvese ás illas"

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